MUNDO De um ponto de vista histórico,
o techno é um estilo baseado no house
e no eletro. O termo house
(casa) se refere a um clube que foi fundado num galpão no porto de Chicago na
metade da década de 80: o Warehouse.
Soul, black e
disco eram casados com batidas eletrônicas,
as quais o dj havia previamente produzido. Assim o dj criava uma nova música a
partir da combinação de outras duas músicas. A partir daí veio o fenômeno da mixagem,
onde o dj poderia teoricamente tocar uma música eterna. Alguns dos melhores djs
da época eram Frankie Knucles e Ron
Hardy, que começaram como produtores, tocando suas músicas
nos clubes e depois lançado em selos como Trax
e Dj International. Músicos como Ralphie
Rosario, Mickey Oliver,
Marshall Jefferson e Mr.
Fringers desenvolveram uma House
avant garde, lá pelo final dos anos
80. Enquanto Chicago era dominada pelo
soul e pelo disco,
um estilo orientado pelo minimal estava
começando a surgir em Detroit, através de figuras locais como Juan
Atkins, Kevin Saunderson
e Derrick May. Este estilo tinha uma
influência pesada de música feita por computador européia como as do Kraftwerk
e do Klaus Schulze (produtor do
Tangerine Dream, entre outras coisas, e também de bandas
new-wave e indie
da Inglaterra, como Depeche Mode, New
Order e Nitzer Ebb).
Detroit deu origem ao techno.
Uma coincidência em Chicago levou a um estilo paralelo chamado acid.
Esse estilo na verdade significa um som típico que é criado usando certos tipos
de sons de sintetizadores além dos de fábrica. Nathan Jones
(aliás dj Pierre) descobriu esta propriedade
na Roland TB 303, que resultou numa
música tocada na Warehouse. Ele declarou:
"Eu comprei o 303 para programar linhas de baixo. Enquanto eu tentava descobrir
o que cada botão fazia, notei a estranha modulação do som que já estava programada
no 303. O acid já estava naquela máquina
há muito tempo." Os freqüentadores descreveram essa música louca como "ácida",
que depois foi usada no lançamento de um vinil. O termo "ácido" tem
mais a ver com o som ácido da música do que com a droga ácido (LSD). Assim como os discos de house
e techno americanos, os discos de acid
também chegaram na Europa, e especialmente na Inglaterra tiveram uma ótima recepção,
mesmo que não tivessem impacto para alcançar o mainstream. Na Inglaterra, um próprio
tipo de cultura acid mais underground nasceu, através de djs e músicos como Baby
Ford e A Guy Called Gerald
e do hino We Call It Aciiieeed, do
D-Mob. Pela primeira vez festas
ilegais feitas ao ar livre aconteciam, encorajadas pela nova droga disponível,
o ecstasy. Estas raves conseguiam cada vez mais popularidade com o tempo. Assim como a maioria dos estilos
musicais que surgem do underground, o acid
morreu devido a um embaraçoso hype.
Raves com bandas orientadas por guitarra (Happy Mondays,
Stone Roses, Primal Scream) ainda aconteciam, apesar da
proibição governamental, até que a polícia se tornou uma presença constante e
sufocou os eventos. O fogo se alastrou e alternativas em outros locais da Europa
e de outros continentes foram achadas. Dentro da área liberal dos estados de Benelux
havia poucas restrições, e aqui algumas pessoas ouviram sobre algumas festas que
aconteciam em algum lugar da Índia. As pessoas que já haviam ido a Goa trouxeram
músicas com elas, e os europeus foram encorajados a irem para lá. O dj
Ray Castle organizou as primeiras festas por lá dominadas
por trance em 1987. O dj Antaro organizou
sua primeira festa goa com alguns poucos iniciados no jardim da sua casa em Lüneburger
Heide (Alemanha) em 1989. Com o aumento da popularidade do techno na
Europa, no final dos ano 80, a cruzada da música eletrônica estava apenas começado.
Na Alemanha, especialmente em centros como Berlim (Dr. Motte,
Westbam) e Frankfurt (Talla 2XLC, Sven
Väth), criou através do techno um novo tipo de cultura underground.
A queda do muro de Berlim e a competição persistente com Frankfurt foram extremamente
vitalisantes para ambas as cidades, o que levou ao surgimento de clubes como Dorian
Gray/Omen e E-Werk
em Berlim. O contato constante com o Detroit Techno
fertilizava a cena constantemente. Juan Atkins, Blake Baxter
e Eddie Flashin' Fowlkes tocavam no
Tresor e lançavam músicas através do
selo do clube. Sob a supervisão de Ralf Hildenbeutel
e Sven Väth em Frankfurt, surgiram
os selos Harthouse e Eye
Q Records, que lançaram, entre outras, faixas do Earth
Nation, Kox Box e Der Drittle Raum,
abrindo o caminho para o futuro nascimento da cena Goa. Enquanto isso o selo MFS
(Masterminded For Success) surgiu em Berlim com projetos
por Cosmic Baby, Voov, Paul Van Dyj e
Mijk van Dijk. O selo Superstition
in Hamburg se tornou uma base de lançamentos para o techno
e o trance, lançando músicas do Oliver Lieb
(The Ambush, Paragliders, LSG, Spicelab).
Algumas bandas de música eletrônica com forte influência no techno começavam a
surgir, chegando a atingir os primeiros lugares nas paradas de sucesso de vários
países: Prodigy, The Chemical Brothers, Daft Punk, Underworld,
etc. A cena techno se estabeleceu na
Inglattera com djs como Carl Cox, com
a sua festa Ultimate B.A.S.E. (Londres),
e grandes festivais de música eletrônica como Tribal Gathering
começaram a surgir. Hoje em dia o maior evento techno do mundo é o Love
Parade, que reúne todos os anos milhões de pessoas pelas
ruas de Berlim (Alemanha). Enquanto grande parte dos produtores
de techno se submetia ao hype do mainstream
e trocavam inovação por posições rápidas nas paradas de
sucesso, a cena psychedelic trance
achava cada vez mais apreciação dos seguidores da saturada cena techno. Mas isso
é um assunto que fica pra próxima. |  BRASIL
A cena techno no Brasil
chegou mais tarde, lá pelo final dos anos 80/início dos anos 90, através de DJs
como Zé Roberto Mahr, que na época
tocava no Crepúsculo de Cubatão (Rio
de Janeiro). Ele também tinha um programa na Rádio Fluminense FM, o
Novas Tendências, onde algumas vezes ele tocou algumas faixas
de techno, quando esse estilo era totalmente desconhecido por aqui.
No início dos anos 90 o Mercado Mundo Mix,
na época uma feira de produtos alternativos, começou a usar o techno como trilha
sonora dos seus eventos, o que levou muitas pessoas a conhecerem o estilo. Logo
em seguida surgiram festas em parques de diversões como a BITCH, que rolava no
Tivoli Park, e em galpões como Val-Demente,
que rolava, entre outros locais, na Fundição Progresso, com djs que tocavam techno,
além de house. Enquanto isso, a boate Dr. Smith,
no Rio de Janeiro, começou a fazer suas primeiras festas techno. O techno também
invadia São Paulo com djs como Mau Mau
e Camilo Rocha. No Rio, o dj Maurício
Lopes inaugurou a festa Oops!,
na Guetto, em Botafogo. Essa festa
era freqüentada por clubbers e tinha uma atmosfera muito legal, pois o hype
do techno ainda não havia contagiado o mainstream e
os mauricinhos e as patricinhas ainda não freqüentavam festas eletrônicas (que
pra eles eram festas de gay e drogado). Também começaram a pipocar ótimas festas
como a Hyper Club e o THC.
O dj Ricardinho NS era o residente
da festa After, que rolava, entre outros
lugares, na Basement, um clube pequeno
e abafado na Galeria Alaska, em Copacabana. A festa só vivia lotada, e sempre
começava a partir das 4 horas da manhã da madrugada de sábado pro domingo e rolava
até o meio-dia. Em São Paulo, surgia o antológico Hell's
Club, que também só vivia lotado e as festas também só começavam
a partir das 4 horas da manhã. Em 97 foi lançado a coletânea Electronic
Brasil, pelo selo do Mercado Mundo
Mix. Esse foi um dos primeiros discos de música eletrônica
brasileira a ser lançado, e reunia músicas do Mau Mau, Habitants,
Loop B, Level 202 etc. Esta foi a época áurea da
cena techno no Brasil. Havia realmente uma cena underground, mas a mídia, como
sempre, resolveu estragar a festa. Tudo começou com uma novela da Globo onde uma
atriz fazia um papel de clubber totalmente estereotipada, e as pessoas começaram
a fazer uma idéia errada dos clubbers. O jornal O Globo
lançou uma matéria de capa no Segundo Caderno
com o título "Techno - a onda do próximo verão".
Muitos clubbers deixaram de freqüentar as festas porque elas foram invadidas por
playboys e pessoas que não tinham nada a ver. A Oops!
acabou, o Hell's Club fechou e a Val-Demente
se partiu em duas festas: a Val, que
era voltada para o público GLS e ainda tocava techno (mas infelizmente a festa
não durou muito) e a X-Demente, que
rola até hoje, mas que não toca techno e é frequentada 90% por barbies-carão
(gays musculosos antipáticos). No Rio, a cena estava estagnada, com algumas
casas noturnas que de vez em quando aportavam festas techno, como a Phunky
Budah, em Ipanema, mas infelizmente essas festas não duraram
muito tempo. A luz no fim do túnel surgiu com a abertura da boate Bunker
94, em Copacabana, no lugar onde antes era a boate gay Le
Boy. Os clubbers voltaram a ter um espaço alternativo, com
festas como a Cubik (residida pelos
djs Mauricio Lopes e Ricardinho
NS) e a Electric Head (residida
pelo dj Ziggy). Recentemente o dj Ricardinho
NS saiu da Cubik
e continua tocando em festas em outras boates do Rio, e a Cubik continua sendo
residida pelo Mauricio Lopes. Na paralela,
o grupo BUM (Brazilian Underground Movement)
começava a organizar festas na Baixada Fluminense e na zona norte do Rio, formada
por djs como Péricles, Schild, André Lima
etc. Apesar do recente falecimento do seu fundador, o Péricles,
o BUM continua na ativa. O dj André
Lima saiu do BUM
e desde então tem feito festas em locais como Barman Club,
em Copacabana, etc. Ainda no Rio, o produtor Gismonti
lançava algumas coletâneas através do seu selo Utter.
Lá pela segunda metade dos anos 90 começaram a surgir as primeiras raves
no estado de São Paulo. No Rio, a primeira rave foi a Bunker
Rave, em 2000, que rolou (e tem rolado) na Fazenda
dos Prazeres, em Vargem Grande. Também começaram a surgir
raves nas areias de Ipanema quase todos os sábados. Atualmente existem várias
casas noturnas em São Paulo que tocam techno; também há festas bacanas acontecendo
nas principais capitais do país, como Curitiba, Goiânia, Recife, Campinas, Brasília
e muitas outras. No Rio são poucas, como as que rolam na Bunker,
no Dama de Ferro e na Six. Infelizmente
a cena techno inflou e muitas outras casas noturnas dizem que tocam techno, mas
na verdade estão apenas se aproveitando do termo, pois de techno essas festas
não têm nada. Hoje em dia, techno, na concepção de muitas pessoas, é um tipo de
música eletrônica comercial, descartável e com apelo pop que toca em rádios FM,
uma parada nada a ver com o que a cena techno era originalmente. Mas felizmente
ainda existem alguns oásis onde se pode dançar e ouvir Techno, com T maiúsculo,
por favor. Kandle (DJ e produtor do Colortronic) |