Lana
Hosser "A televisão é uma
máquina de fazer loucos." Esta frase, dita por Sérgio Porto, talvez seja
a expressão que mais se aproxime do que a televisão brasileira vêm construindo
ao longo de muitos anos. Os "reality shows", hoje amplamente
divulgados em diversas formas, é no atual momento o que nos faz constatar isso.
A explosão de tais programas, bem como seus níveis de audiência nos falam alto
sobre muitas características da nossa sociedade. Isto significa que a aceitabilidade
por parte dos telespectadores é o que demanda a "oferta" de tais programas.
E o quê, exatamente, estamos demonstrando ao aclamar tal forma de lazer?
"Reality show" (expressão usada para este formato) é um programa
no qual é exibido o cotidiano de pessoas que se submetem ao foco de uma camêra
durante 24 horas por dia. O expectador por sua vez assiste ao que já
é chamado em bom português de "novela da vida real". Experimenta-se
então, não uma história fictícia como nas teledramaturgias existentes. O que há
são pessoas num espaço restrito, sem poderem sair dali, sob o olhar de muitos.
Nada mais natural, usar a capacidade visual para se entreter, sobretudo numa
sociedade que prioriza tal capacidade. O melhor marketing, ou o mais eficiente
atualmente, é sem dúvida, aquele que dá ênfase a imagem. Imagem! Esta é a palavra
do século. Sabe-se que este processo vem se desenvolvendo há algum tempo. É
a imagem do sujeito que fala mais alto, em muitas vezes mais alto do que seu próprio
caráter que fica relegado a segundo plano. Não me
refiro aqui ao "marketing pessoal", aquele em que o sujeito se cuida,
e anda devidamente arrumado, não desmazelado, mas a supervalorização do que é
o modelo do belo, aquela imagem que é top de linha, os traços perfeitos, a silhueta
perfeita. Agora chegamos ao ápice da valorização do ver. | O olhar é um dos meios
que usamos para nos relacionar com o mundo externo, assim como acontece com pessoas
que perdem um dos sentidos, um outro será hiperestimulado e terá uma maior sensibilidade.
Quando se prioriza "espiar" o outro, a vida do outro, se estimula tal
sentido. Ver dá prazer! Todo aquele que se exibe precisa de um outro para que
o espie e o mesmo se dá em sentido inverso. Ambos os casos denotam deficiência
na satisfação dos desejos, pois a satisfação é dada através de um recurso que
deveria ser um meio para um fim. São muitos os casos em que pessoas só conseguem
satisfação através do uso de um recurso específico e é aí que reside o problema.
O que evidencia que algo está errado é o fato de só se conseguir satisfação através
de um recurso, não precisando ir além. A obtenção da satisfação por uma única
e exclusiva via é patológico. A questão no entanto, é: o quanto estamos
estimulando este sentido? Não estaríamos nos tornando vouyers em potencial? O
que é que a televisão brasileira está realmente querendo formar? Os menos
privilegiados, que não cabem nos modelos pré-estabelecidos para aceitabilidade
usam seus recursos. Cirurgias plásticas, silicones, bombas e agora os "reality
shows", os primeiros conseguem aceitação por se "recauchutarem"
e para os últimos resta apenas se prostrarem em frente a um aparelho de tv e observar,
pois a estes foi negado o direito de participar da vida nos moldes atuais.
Quão saudável pode ser a relação interpessoal de um ser humano, cuja principal
fonte de lazer é o uso exarcebado da visão? De certo este indivíduo terá déficits
nos outros sentidos, como o ouvir, o toque. O toque será sem dúvida o sentido
que mais perderá. Estaremos diante de seres que se satisfazem ao olhar o outro
e cada vez mais distantes dos demais.lbh@bol.com.br |