De 1960 à 1969,
em cada um dos cinco continentes, em quase todos os 145 países de vários sistemas
políticos, o mundo conheceu a rebeldia dos jovens. Ao lado das guerras - e mais
do que o sexo -, as manchetes dos jornais falavam da odisséia de 519 milhões de
inconformados. Mutantes da nova "era oral e tribal em dimensões
planetárias, produzidas pelas comunicações de massa", segundo Marshall McLuhan,
os jovens - um sexto da população Terra - eram ao mesmo tempo mito e desmistificadores
da sociedade. Consumindo e consumidos, contestando e contestados, eles lutaram
com todas as armas para destruir o velho e impor o novo. Foram anos de luta e
recusa, pacífica ou violenta. A revolta juvenil, nos anos 60, deixou
de ter simples motivações psicológicas (não mais uma "crise de adolescência")
para ganhar componentes sociológicos novos e se constituir em problema social.
De um dia para o outro, "a nossa esperança do amanhã" resolveu fazer
o presente. Como afirmaram, era preciso deixar de ser objeto para ser sujeito
da História. De eterna ameaça romântica e simbólica eles passaram a ser destruidores
de tudo o que estava estabelecido e consagrado: valores e instituições, idéias
e tabus. Com a pressa que lhes davam a sua provisória condição e com a coragem
da idade, eles afrontaram a moral vigente e arrancaram as pedras das ruas para
com elas pôr por terra as estruturas da sociedade: capitalista ou comunista, de
opulência ou de miséria.  Em todos eles um máximo
denominador comum: não. Mas, descrentes de tudo o que herdaram,
os jovens perderam até a confiança no não que lhes tinham
ensinado a dizer e criaram uma nova semântica da negação - o sim ao não - e uma
nova forma de dizê-lo: a ação. Um não que podia ter a aparência
de cabelos compridos, roupa suja, música estridente, pés descalços e "blue
jeans", ou assumir a forma mais ameaçadora de uma pedra na mão e uma idéia
revolucionária na cabeça. Clandestinamente, dissimulada, mais difícil
de ser notada e reprimida do que o rosto da violência ostensiva, uma outra face
da juventude estava surgindo. Não tinha ainda nome próprio e era considerada demissionária
dos beatniks dos anos anteriores. Aos poucos foram captados alguns de seus indícios.
Em 1960 descobriu-se, por uma pesquisa, que quatro entre cinco alunos da Universidade de
Harvard consideravam as religiões tradicionais vazias de conteúdo metafísico e
não os ajudavam a encontrar a verdade. Um ano depois, um professor de psicologia
da mesma Universidade, Timothy Leary, após experiências com um tipo de cogumelo
mexicano que produzia a mescalina, de propriedades alucinógenas, prosseguia suas
pesquisas aplicando 3500 doses da droga em 400 estudantes voluntários que procuravam
experiências místicas. Da mescalina, Leary e seu assistente Richard Alpert passaram
a usar outra substância ainda mais poderosa, o LSD, uma sigla que iria acompanhar
grande parte da juventude naquela década. Em pouco tempo, o número de "iniciados"
cresceu assustadoramente e já se percebia vagamente, dentro das universidades,
aquela cara de cabelos despenteados e roupas desalinhadas. Esses jovens apresentavam
uma diferença em relação aos outros. Detestavam a violência tanto quanto a sociedade
da qual pretendiam se afastar cada vez mais. Negando a religião, mas buscando
Deus no misticismo oriental, esses jovens foram aumentando rapidamente
o seu quadro e em 1962 o símbolo LSD já era conhecido das grandes faculdades americanas;
dos alunos, mas não dos responsáveis e do público. O escâncalo só explodiria
quando Timothy Leary, expulso de Harvard, apelou para a Justiça e reclamou, em
nome da ciência e da democracia, o direito de prosseguir suas experiências. Em
menos de uma semana, confusa, a América e logo o mundo tomaram conhecimento do
fenômeno "psicodélico". Leary foi preso e confessou já ter aplicado
LSD em mais de mil pessoas, metade das quais de formação religiosa, entre elas
69 ministros protestantes ou padres católicos. Dessas pessoas, 75% reconheciam
terem atingido um estado místico religioso intenso, e mais da metade afirmou ter
realizado a experiência mais profunda e real de sua vida. A "revolução
psicodélica" era o caminho que grande parte da juventude estava escolhendo
ou iria escolher. A partir da metade da década ocorreu a explosão dos hippies
floridos. Mas, paralelamente, um problema iria assumir proporções internacionais
também a partir dos anos 65-66. A cada dia, em vários países - do Brasil ao Japão,
dos Estados Unidos à Checosvoláquia - os estudantes substituíam a rotina das aulas
pela rotina das greves, das manifestações, dos protestos e das ocupações de faculdades.
Suas organizações políticas multiplicavam-se e os choques com a polícia tornavam-se
freqüentes. Protestos comuns iam dando um mesmo sentido às manifestações em várias
partes do mundo: as demonstações eram contra a guerra do Vietnam, contra o racismo,
pela paz, pelos subdesenvolvidos. 
| Através de uma imensa
variedade de formas, a juventude procurava romper com tudo: com a universidade,
com a família, com a arte, com os partidos. O que era novo passou a ter um valor
em si: a tradição tinha que ser destruída. Uma palavra percorreu o mundo nessa
tormenta furiosa de negação: contestação. Mais do que os jovens, o mundo
havia mudado. A sociedade industrial avançava rompendo princípios, modificando
as relações e as condições de vida; os meios de comunicação quebravam os valores
regionais e introduziam uma cultura uniforme sem fronteiras. Em face de valores
como o amor, a liberdade, a justiça e a fraternidade, surgia uma nova realidade
- o consumo - estabelecendo seus próprios valores: a eficácia, o sucesso, a competição.
Mais eficazmente do que a sociologia na sua busca de configurar a juventude, as
grandes organizações comerciais descobriram nos jovens todo o potencial do consumidor:
em apenas quarenta anos, o número dos jovens até 24 anos duplicaria. Toda uma
linha de produção - discos, roupas, espetáculos - foi concebida a partir deles
para eles. Os personagens que os jovens tranformaram em ídolos (dos Beatles a
Che Guevara), justamente porque tinham contestado o sistema, lhes foram devolvidos,
comercializados: moda Mao, camisas com o rosto de Che, posters dos Beatles. O
consumo transformava a contestação a ele, num rendoso produto de consumo.
Uma dinâmica nova surgia. Os jovens contestavam a sociedade e essa consumia
a contestação. Uma busca desesperada de afirmação para fazer valer a sua negação
passava a ser realizada em todos os campos - na moda, na pintura, no cinema e
sobretudo na música. As suas cores gritavam tanto quanto o seu som, agressivo
e agônico. As boates românticas cederam lugar às discotecas onde tudo se agitava,
sobretudo a luz e os corpos. O "rock'n'roll" dos anos 50 foi rejuvenescido
pelo "twist"de Chubby Checker, depois pelo "jerk", "frug",
"monkey", "surf", "let kiss", "drag",
todos de curta duração, onde apenas os gestos e os nomes variam. Dançar tornou-se
a forma mais imperiosa e exclusiva de expressão. Em Tóquio e Nova York, São Paulo
e Paris, as discotecas e os conjuntos musicais se multiplicavam, assim como na
Polônia, Hungria, Checoslováquia. Em todos os lugares, os Beatles. A essas extroversões
ritmadas opunham-se o recolhimento nas drogas. A busca das "viagens",
das fugas e do "conhecimento de si próprio" acentuaram-se vertiginosamente.
Apontava-se como singularidade sociológica
da juventude o fato de ela, por ser essencialmente transitória, não constituir
uma categoria social. Mas os jovens estavam cada vez mais se agrupando entre si
nos clubes, nas boates, nas concentrações. A insistência sobre o parecer (vestido,
cabelos), sobre o gesto típico (linguagem própria, dança) já era considerada como
um primeiro passo para se constituir como categoria social. As grandes concentrações
- como a de Woodstock, onde centenas de milhares de pessoas se reuniram para falar
de paz, de música e para viver dias de completa liberdade - demonstraram o sentido
profundo da comunidade que estava se formando entre os jovens daquela década e
a compreensão mística de si mesmos como um grupo à parte: um "nós" em
franca oposição a "eles". "Eles" é o mundo adulto
dos pais e sua impotência em viver os valores que pregam. "Eles" são
também os sistemas socias incapazes de preencher o vazio entre ideal e realidade.
A constatação do fracasso da civilização criada pelas gerações anteriores - de
guerras, injustiças sociais, violência, opressão - e a contemplação da massa amorfa
de casos, dossiês e números em que às vezes o homem é transformado pela sociedade
de consumo, explodiram na consciência dos jovens dos anos 60, que passaram a negar
todas as manifestações visíveis dessa civilização. Em 1969 podia-se perguntar
o que mais havia ficado da contestação mais radical que os estudantes fizeram
de uma sociedade. De sua revolta ("a sociedade é uma flor carnívora"),
do seu lirismo ("o tédio está chorando"), de sua poesia ("eu me
liberto nas pedras da rua"), de sua afirmação ("as liberdades não se
exigem; são tomadas"), de suas ambições ("a imaginação no poder"),
de sua liberdade ("é proibido proibir", "sim ao não"). Mao,
Marx, Che, Trótski, Ho Chi Minh, Lênin, Rosa Luxemburgo conviveram em citações
ao lado de Rimbaud ("é preciso mudar a vida") e Antonin Artaud ("nunca
estudei, mas tudo vivi e isso me ensinou alguma coisa"). "Vocês
sabem o que está acontecendo?" Não, ninguém sabia. Formas obsoletas de luta
eram desenterradas (a pedra, a barricada, o pau), templos do saber como a Sorbonne
eram invadidos, ídolos de outras gerações como Sartre e o comunista histórico
Aragon eram vaiados, carros incendiados, teatros tomados. A imaginação havia tomado
o poder. Todos os valores oficiais e tradicionais eram escritos entre aspas e
provocavam risos. As ruas eram rebatizadas por centenas de jovens eufóricos que
escolhiam os novos nomes entre aplausos: Rua do Oriente Vermelho, do Vietnam Heróico,
Rua Guevara. Bandeiras vermelhas e pretas flutuavam em monumentos austeros e cobriam
relíquias históricas. O amor e a política passaram a ser feitos na rua.
Evadir-se ou participar da destruição da sociedade, eis a opção a que eles se
colocavam. Evadir-se foi a resposta hippie. Mais de 400.000 jovens, só nos EUA,
deram as costas à sociedade e saíram à procura de outras verdades. Os hippies
marginalizaram-se e tentaram uma revolução da moral e dos costumes. Os jovens
dos países socialistas reivindicavam liberdade política, enquanto os dos países
industrializados do Ocidente contestavam a civilização de consumo que aliena o
homem. No terceiro mundo, a luta era pela liberdade econômica. |