O poder das grandes empresas está acabando com os governos e com a democracia, alerta economista inglesa
Ana Magdalena Horta
(publicado originalmente na revista Época)


Bonita e bem-falante, a economista inglesa Noreena Hertz, de 34 anos, é uma dissidente. Em 1992, então funcionária do Banco Mundial, uma das engrenagens do sistema globalizado, ela foi enviada à Rússia para sugerir um programa de privatizações. Obrigada a aplicá-lo mesmo tendo chegado à conclusão de que sua principal conseqüência seria um colapso social, resolveu mudar de lado. 'Eu era uma vendedora de capitalismo. Agora quero mudar o mundo', diz. Hoje diretora associada do Centro para Negócios e Administração Internacional da Universidade de Cambridge, Noreena tem corrido o mundo para falar de seu livro The Silent Takeover (A Conquista Silenciosa), campeão de vendas tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, ainda sem tradução no Brasil. Pouco mais de um ano após o lançamento, o texto já foi traduzido em mais de dez idiomas e freqüenta a cabeceira de dez entre dez simpatizantes dos movimentos antiglobalização. Noreena acusa as multinacionais de estar silenciosamente conquistando o mundo e pervertendo os sistemas democráticos. Com um inigualável trunfo nas mãos - o dinheiro -, elas impõem políticas e influenciam decisões, além de invadir áreas de atuação pública, como educação e saúde. 'A democracia e seus instrumentos de representação estão sob ameaça', acredita Noreena. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida a ÉPOCA, por telefone, de Londres.

- O que é a 'conquista silenciosa'?
Noreena Hertz - Vivemos num mundo no qual os governos vêm perdendo poder para as multinacionais. Elas estão assumindo cada vez mais responsabilidades e funções do Estado. Uma idéia do peso dessa invasão: das 100 maiores economias do mundo, 51 são empresas.

- Esse processo acontece em todos os países?
Noreena - Sim. Em alguns deles, o movimento é bem claro, como nos EUA. As políticas ambientalistas de George W. Bush são orientadas pelos interesses das gigantes de energia, que financiaram parte de sua campanha. A questão fica também clara quando se analisam acordos comerciais como o Nafta (EUA, México e Canadá), cujos princípios retiram dos governos a capacidade de tomar certas decisões. Na Europa, temos outro bom exemplo: o ex-ministro alemão Oskar la Fontaine tentou elevar os impostos corporativos em 1999, mas companhias como Deutsche Bank, BMW e Daimler-Benz se juntaram e disseram que iriam tirar fábricas e investimentos do país se ele fizesse isso.

- Em países em desenvolvimento isso também é flagrante?
Noreena - Claro, sobretudo porque nos últimos anos a ajuda internacional a esses países caiu cerca de 45%. A economia de países em desenvolvimento é muito dependente de investimentos externos, e cada vez mais eles reduzem o nível de exigência para recebê-los, seja fazendo vista grossa para violações de normas ambientais, seja até oferecendo benefícios, como num leilão.

- Que responsabilidades as corporações estão assumindo?
Noreena - Há uma queda generalizada de investimentos públicos em áreas como educação e saúde, mesmo em países como EUA e Inglaterra, com o setor privado passando a financiar muitos programas. Multinacionais como a Coca-Cola, por exemplo, têm investido recursos na educação.

- Mas isso não é positivo?
Noreena - De início, sem dúvida. A questão é: que preço vamos pagar por isso? Há um caso ridículo de um garoto de 19 anos que foi suspenso de uma escola na Geórgia (Estado-sede da Coca-Cola) porque estava usando uma camiseta da Pepsi. Esse é o tipo de discussão que vemos surgir quando negócios e políticas de bem-estar social se misturam.

- Mas há um problema prático, pois o Estado de Bem-Estar Social não se sustenta mais por falta de recursos. É possível imaginar um governo com condições de arcar com todas as despesas necessárias para dar educação, saúde, boa aposentadoria?
Noreena - Estamos longe de pensar em um governo que pague tudo. O que digo é que ele deve ser responsável por certas coisas. Quero abrir a discussão. Aqui na Inglaterra, o governo finalmente admitiu que, para dar um serviço de saúde melhor, é preciso recolher mais impostos. A população tem de discutir isso.

- A conversa de 'responsabilidade social' é puro marketing?
Noreena - As companhias têm de maximizar o retorno para seus acionistas. Se há uma possibilidade de aumentar os lucros fazendo o bem, elas o fazem. Na maioria das vezes, elas ganham em coisas intangíveis, como imagem e reputação.

- Isso pode ser negativo?
Noreena - No Japão, as empresas normalmente davam tudo para seus funcionários. As cidades da Nissan, da Toyota, da Mitsubishi ofereciam educação, saúde, auxílio-moradia. Mas, quando a crise chegou, as empresas simplesmente disseram que iriam suspender esses benefícios. Os programas sociais existirão enquanto forem do interesse das corporações.

- A globalização favorece essa desimportância dos governos?
Noreena - Na atual configuração, sim. Países que estão submetidos a políticas do Banco Mundial ou do FMI sofrem claras restrições em termos de gastos públicos. No entanto, não há ligação obrigatória entre a globalização e essas limitações. Tudo vai depender do tipo de resposta conjunta que será elaborado para enfrentar a influência das multinacionais.

- Há alguma vantagem na integração econômica?
Noreena - A globalização é inevitável e pode trazer com ela mais desenvolvimento científico e prosperidade. O problema é como garantir que seus efeitos sejam repartidos de maneira mais igual e seus custos sejam bem administrados. Depender somente do mercado para regular o planeta pode ser traiçoeiro.

- A democracia está realmente em perigo?
Noreena - Mais de 90 milhões de eleitores americanos não votaram nas últimas eleições presidenciais, mais que a soma da população da Inglaterra, da Irlanda e da Escandinávia. Na Inglaterra e na França, a história se repete, com índices históricos de abstenção. Isso mostra que assistimos a uma verdadeira crise de fé na política. E esse declínio do interesse do eleitor ocorre ao mesmo tempo que a ascensão do capitalismo americano de estilo neoliberal. Quando analisamos os dados de perto, vemos que as pessoas que não estão votando são na maioria pobres e marginalizadas, que se sentem cada vez mais excluídas dos mecanismos de representação.

- Como isso se manifesta em países onde o voto é obrigatório, como o Brasil?
Noreena - O desinteresse nesses países é revelado pelo número de votos nulos ou em candidatos que representam o protesto.

- Os resultados das eleições são cada vez mais determinados pela economia, especialmente em países em desenvolvimento? No caso brasileiro, a perspectiva de uma vitória da oposição tem mexido com os mercados, feito o dólar subir e assustado a população.
Noreena - O fato de empresas e bancos internacionais serem capazes de afetar os rumos internos de um país como o Brasil é uma manifestação clara da amplitude da 'conquista silenciosa'. É preciso lembrar que as empresas, historicamente, jamais demonstraram compromisso com a democracia, investindo durante ditaduras e regimes autoritários. A lógica delas é outra, a do lucro.

- O protesto é a melhor arma para enfrentar isso?
Noreena - O objetivo dos protestos deve ser mudar a agenda política. Já estamos vendo uma mudança desde as manifestações de Seattle. Estive em fevereiro no Fórum Econômico Mundial, em Nova York. Os mais altos executivos já se dão conta de que é preciso escutar as ruas.

- Os atuais escândalos envolvendo multinacionais dos EUA podem ter algum efeito nesse poder que as empresas exercem?
Noreena - As empresas são moralmente ambivalentes e operam em um sistema diferente, no qual o que importa são os bons resultados financeiros. Sempre foi assim. A responsabilidade de regulação, para garantir que ninguém saia prejudicado, é do Estado. O que acontece hoje é a manifestação do fantástico aumento da ganância.

- O saldo dessa confusão será positivo?
Noreena - Há um ano, uma pesquisa mostrou que os americanos achavam que as empresas tinham mais influência sobre sua vida que o próprio governo. Agora, eles vão passar a perceber que as empresas não estão olhando para o interesse público, mas para o delas. A conquista silenciosa está se revelando à luz do dia. E isso pode levar a mudanças reais.