-
O que é a 'conquista silenciosa'? Noreena
Hertz - Vivemos
num mundo no qual os governos vêm perdendo poder para as multinacionais. Elas
estão assumindo cada vez mais responsabilidades e funções do Estado. Uma idéia
do peso dessa invasão: das 100 maiores economias do mundo, 51 são empresas.
- Esse processo acontece
em todos os países?
Noreena
- Sim. Em alguns deles,
o movimento é bem claro, como nos EUA. As políticas ambientalistas de George W.
Bush são orientadas pelos interesses das gigantes de energia, que financiaram
parte de sua campanha. A questão fica também clara quando se analisam acordos
comerciais como o Nafta (EUA, México e Canadá), cujos princípios retiram dos governos
a capacidade de tomar certas decisões. Na Europa, temos outro bom exemplo: o ex-ministro
alemão Oskar la Fontaine tentou elevar os impostos corporativos em 1999, mas companhias
como Deutsche Bank, BMW e Daimler-Benz se juntaram e disseram que iriam tirar
fábricas e investimentos do país se ele fizesse isso. - Em países em desenvolvimento
isso também é flagrante? Noreena
- Claro,
sobretudo porque nos últimos anos a ajuda internacional a esses países caiu cerca
de 45%. A economia de países em desenvolvimento é muito dependente de investimentos
externos, e cada vez mais eles reduzem o nível de exigência para recebê-los, seja
fazendo vista grossa para violações de normas ambientais, seja até oferecendo
benefícios, como num leilão. - Que responsabilidades
as corporações estão assumindo? Noreena
- Há uma
queda generalizada de investimentos públicos em áreas como educação e saúde, mesmo
em países como EUA e Inglaterra, com o setor privado passando a financiar muitos
programas. Multinacionais como a Coca-Cola, por exemplo, têm investido recursos
na educação. - Mas isso não é positivo?
Noreena
- De início,
sem dúvida. A questão é: que preço vamos pagar por isso? Há um caso ridículo de
um garoto de 19 anos que foi suspenso de uma escola na Geórgia (Estado-sede da
Coca-Cola) porque estava usando uma camiseta da Pepsi. Esse é o tipo de discussão
que vemos surgir quando negócios e políticas de bem-estar social se misturam.
- Mas há um problema
prático, pois o Estado de Bem-Estar Social não se sustenta mais por falta de recursos.
É possível imaginar um governo com condições de arcar com todas as despesas necessárias
para dar educação, saúde, boa aposentadoria? Noreena
- Estamos
longe de pensar em um governo que pague tudo. O que digo é que ele deve ser responsável
por certas coisas. Quero abrir a discussão. Aqui na Inglaterra, o governo finalmente
admitiu que, para dar um serviço de saúde melhor, é preciso recolher mais impostos.
A população tem de discutir isso. - A conversa de 'responsabilidade
social' é puro marketing? Noreena
- As companhias
têm de maximizar o retorno para seus acionistas. Se há uma possibilidade de aumentar
os lucros fazendo o bem, elas o fazem. Na maioria das vezes, elas ganham em coisas
intangíveis, como imagem e reputação. - Isso pode ser negativo?
Noreena
- No Japão,
as empresas normalmente davam tudo para seus funcionários. As cidades da Nissan,
da Toyota, da Mitsubishi ofereciam educação, saúde, auxílio-moradia. Mas, quando
a crise chegou, as empresas simplesmente disseram que iriam suspender esses benefícios.
Os programas sociais existirão enquanto forem do interesse das corporações. | - A globalização favorece
essa desimportância dos governos? Noreena
- Na atual
configuração, sim. Países que estão submetidos a políticas do Banco Mundial ou
do FMI sofrem claras restrições em termos de gastos públicos. No entanto, não
há ligação obrigatória entre a globalização e essas limitações. Tudo vai depender
do tipo de resposta conjunta que será elaborado para enfrentar a influência das
multinacionais. - Há alguma vantagem
na integração econômica? Noreena
- A globalização
é inevitável e pode trazer com ela mais desenvolvimento científico e prosperidade.
O problema é como garantir que seus efeitos sejam repartidos de maneira mais igual
e seus custos sejam bem administrados. Depender somente do mercado para regular
o planeta pode ser traiçoeiro. - A democracia está
realmente em perigo? Noreena
- Mais de
90 milhões de eleitores americanos não votaram nas últimas eleições presidenciais,
mais que a soma da população da Inglaterra, da Irlanda e da Escandinávia. Na Inglaterra
e na França, a história se repete, com índices históricos de abstenção. Isso mostra
que assistimos a uma verdadeira crise de fé na política. E esse declínio do interesse
do eleitor ocorre ao mesmo tempo que a ascensão do capitalismo americano de estilo
neoliberal. Quando analisamos os dados de perto, vemos que as pessoas que não
estão votando são na maioria pobres e marginalizadas, que se sentem cada vez mais
excluídas dos mecanismos de representação. - Como isso se manifesta
em países onde o voto é obrigatório, como o Brasil? Noreena
- O desinteresse nesses
países é revelado pelo número de votos nulos ou em candidatos que representam
o protesto. - Os resultados das
eleições são cada vez mais determinados pela economia, especialmente em países
em desenvolvimento? No caso brasileiro, a perspectiva de uma vitória da oposição
tem mexido com os mercados, feito o dólar subir e assustado a população.
Noreena
- O fato de empresas e bancos
internacionais serem capazes de afetar os rumos internos de um país como o Brasil
é uma manifestação clara da amplitude da 'conquista silenciosa'. É preciso lembrar
que as empresas, historicamente, jamais demonstraram compromisso com a democracia,
investindo durante ditaduras e regimes autoritários. A lógica delas é outra, a
do lucro. - O protesto é a melhor
arma para enfrentar isso? Noreena
- O objetivo
dos protestos deve ser mudar a agenda política. Já estamos vendo uma mudança desde
as manifestações de Seattle. Estive em fevereiro no Fórum Econômico Mundial, em
Nova York. Os mais altos executivos já se dão conta de que é preciso escutar as
ruas. - Os atuais escândalos
envolvendo multinacionais dos EUA podem ter algum efeito nesse poder que as empresas
exercem? Noreena
- As empresas
são moralmente ambivalentes e operam em um sistema diferente, no qual o que importa
são os bons resultados financeiros. Sempre foi assim. A responsabilidade de regulação,
para garantir que ninguém saia prejudicado, é do Estado. O que acontece hoje é
a manifestação do fantástico aumento da ganância. - O saldo dessa confusão
será positivo? Noreena
- Há um
ano, uma pesquisa mostrou que os americanos achavam que as empresas tinham mais
influência sobre sua vida que o próprio governo. Agora, eles vão passar a perceber
que as empresas não estão olhando para o interesse público, mas para o delas.
A conquista silenciosa está se revelando à luz do dia. E isso pode levar a mudanças
reais. |