A Índia
sempre foi um país de múltiplas facetas. Nesta terra singular situa-se Goa, na
costa oeste, a aproximadamente 600 km ao sul de Bombay. Goa é um Estado e não
uma ilha, como muitos pensam, e foi uma colônia portuguesa até 1962. Devido a
isso, Goa tem até hoje uma forte influência cristã e difere das outras áreas da
Índia em relação à liberdade, tolerância religiosa e diversidade cultural. Por
causa do seu clima - média anual entre 20C e 34C -, suas praias quase desertas
e sua cultura desprendida em relação ao dinheiro, em contraste com nossa civilização
ocidental, Goa tornou-se um ponto de encontro internacional de "new agers",
místicos, anarquistas, filósofos, traficantes de drogas e pessoas interessadas
em espiritualismo. Os moradores locais são amigáveis e receptivos aos visitantes.
Assim, Goa tem sido um verdadeiro paraíso para jet-set hippies
e viajantes mochileiros, todos conectados através do desejo
de quererem ter uma posição fora do sistema ocidental, além de anciarem poder
fugir do inverno gelado da Europa e EUA. Todos procuram em Goa o lado intenso
e bonito da vida. E é claro que a música não poderia faltar nesse cenário.
No início, as festas nas praias eram tomadas pelo rock psicodélico e pelo
reggae. Estas festas se tornavam cada vez mais populares. Decorações feitas de
cores fluorecentes e a mitologia indiana tornaram-se parte da vida de Goa. Entre
1987 e 1988 um DJ francês chamado Laurent teve a idéia de tocar música eletrônica
nessas festas. No início ele teve muita oposição, mas com o tempo a faísca pegou
fogo e a música eletrônica passou a ser parte da cena de Goa.  Outras pessoas perceberam o imenso
potencial desse tipo de música tocado em raves na praia. O DJ
Goa Gill foi da Cailfórnia até Goa e eventualmente se tornou
o maior protagonista da música eletrônica em Goa, mantendo esse título até hoje.
Ele criou a conexão entre batidas eletrônicas, espiritualidade, yoga e música
com o seu conceito de "redefinir o antigo ritual tribal para o século XXI",
guiando o público através do trance a um estado de consciência mais elevado.
No início, era bem difícil conseguir fazer estas raves - os DJs tinham de
tocar usando fitas cassetes de walkman. Naquela época os CDs ainda não eram populares
e o calor e a poeira de Goa não eram propícios para o vinil. A música se desenvolveu
para uma colorida mistura de Post-Wave, Electronic Body Music
(EBM), New Beat, Front 242, Nitzer Ebb, variando entre música
eletrônica belga, inglesa e americana. O início da cena techno e acid também chegou
com força em Goa. O mês de abril trazia um calor insuportável, e as chuvas
duravam até agosto, então as pessoas aproveitavam para voltar aos seus países
de origem, levando e espalhando com eles a cultura de Goa, e também voltando para
Goa com novas influências. Nessa altura, Goa havia se transformado num dos centros
de música eletrônica mais inovativos do planeta, graças a ajuda do walkman e posteriormente
do DAT (Digital Audio Tape).  A grande gama de possibilidades
que resultaram das experiências dos anos 80 (criar música psicodélica através
do computador e de sintetizadores) causou uma inundação de criatividade que se
espalhou pelo globo. Músicos como Johann Bley,
do Juno Reactor, levaram computadores
para Goa. Dessa união de diferentes pessoas de várias partes do mundo resultou
um estilo mais individual que se tornaria conhecido como goa-trance.
A reputação de Goa como um paraíso aumentava e trazia cada vez mais
viajantes do mundo inteiro. Na Alemanha, as pessoas que se conheceram nas festas
da Índia passaram a se encontrar regularmente a 30 km ao sul de Hamburgo num local
desconhecido chamado Waldheim, entre
1989 e 1990. Era normal pessoas da Bavária irem nessas festas também. O lugar
começou a ficar cheio demais, ao ponto das pessoas que não conseguiam entrar passarem
a dançar no meio da rua mesmo. Nada andava, o trânsito ficava caótico, então o
local teve que ser fechado. Nos pubs as pessoas começaram a planejar uma mega
rave, então em 1991 foi feita a primeira Voov-Experience,
com mais de 1500 pessoas. Johann Bley voltou para Goa junto com Youth,
seu amigo de raves, até então conhecido como o parceiro de Alex Paterson no projeto
ambient The Orb e baixista da banda
Killing Joke, que lançou a primeira
faixa oficial de goa-trance. O nome da música era Jungle
High, lançado pelo selo Perfecto,
de Paul Oakenfold, e se tornou num enorme sucesso nos charts
da Inglaterra. Inspirado por isto, Youth lançou o primeiro selo de psy-trance.
Utilizando as estruturas de estúdio de gravação do seu selo Butterfly,
Youth batizou seu novo selo de Dragonfly.
Este selo se tornou o primeiro da cena psychedelic
trance de Londres. Simon Posford, engenheiro
de som do Butterfly, criou o projeto eletrônico Hallucinogen.
O primeiro lançamento do Dragonfly saiu em maio de 1993, uma coletânea com bandas
como Genetic, Gumbo, TIP e Black
Sun. A segunda coletânea, Project II
Trance, foi lançada em agosto do mesmo ano e incluía faixas
do grupo francês Total Eclipse e do
Mandra Gora, produzido por Johann e
Youth. No ano seguinte mais singles foram lançados e vieram as primeiras músicas
do Hallucinogen. Man
With No Name, Prana, Ayahuasca, Slinky Wizard e Doof
foram outros grupos que surgiram em seguida.  Em 1994 a cena psy-trance da Inglaterra
havia se desenvolvido rapidamente, e festas grandes como Return
to the Source aconteciam, enquanto inúmeros selos de psy-trance
começavam a surgir. Os integrantes do Slinky Wizard
fundaram o Flying Rhino Records. Simon
Berry lançou o Platipus Records - o
primeiro lançamento foi um vinil do Technossomy.
O Platipus Records também lançou Children,
do Robert Miles (esta música é considerada
a de maior sucesso da história das paradas de sucesso trance até o momento) e
álbuns vanguardas como There Will Be No Armageddom do
Union Jack (1996), que incluía hinos
trance como Red Herring e Cactus. |  O Blue
Room Released havia se tornado ao mesmo tempo um dos mais
brilhantes e misteriosos selos. Devido a um contrato com uma companhia de auto-falantes
suíça, o selo conseguiu um bom suporte financeiro e seus lançamentos passaram
a ser distribuídos por todo o planeta. Em abril de 1995 foi lançada a primeira
coletânea tripla de trance em LP e CD, o Outside the Reactor,
que incluía bandas como Spectral, Total Eclipse, Moog, Har-Eil,
Voodoo People e Total Eclipse.
Quando a banda X-Dream, de Hamburgo,
lançou o single The Frog, a cena psy-trance
atingiu o seu clímax, culminando em lançamentos como Bible
of Dreams (Juno Reactor), As a Child (Delta) e o álbum Dragon
Tales do Kox Box.
Apesar da Inglaterra ter
liderado a cena trance por anos, por causa da sua cena underground desenvolvida,
as raves foram proibidas pelo governo e quase sumiram por completo. Como raves
ao ar livre são essenciais para o trance, que demanda um contato mais direto com
a natureza, a cultura trance inglesa foi abafada, porque as festas só podiam ser
realizadas em locais fechados e tinham de terminar cedo. Ao mesmo tempo, a Alemanha
se tornara um paraíso para raves, devido às suas leis mais liberais e a recente
queda do muro de Berlim, que teve um grande impacto no crescimento da cena alemã.
Enquanto isso, a fama de Goa se espalhava cada vez mais pelo mundo,
resultando num fluxo muito grande de turistas. Em 1998 havia quatro vezes mais
o número de turistas do que em 1994. Assim a longa relação cultivada entre os
ravers e moradores foi destruída. Tudo
passou a custar mais caro, pois os indianos perceberam o imenso potencial financeiro
que aqueles visitantes de países abastados estavam trazendo para Goa. O espírito
original de Goa sumiu feito fumaça em pouco tempo, e a irmandade deu lugar para
DJs egoístas, competições, lutas por território e ignorância. 
Paralelamente, tudo estava se tornando maior na cena psy-trance européia. Os festivais
Voov-Experience e Shiva
Moon recebiam mais de 10.000 pagantes. Muitas organizações
menores começaram a aparecer, resultando num mercado saturado de raves, principalmente
na Alemanha. O mainstream, a mídia e grandes empresas passaram a perceber o "fenômeno
Goa", apesar do seu auge já ter passado. Cegados pelo sucesso, muitos antigos
alternativos de Goa se tornaram estrelinhas
arrogantes, com muitos DJs agindo como se fossem deuses. Resumindo: a decadência
havia batido na porta da cena goa-trance da Europa. Em outubro de 97 Matsuri marcou
o fim do goa-trance com a coletânea Let It R.I.P.
As vendas diminuíram drasticamente, a falência da distribuidora inglesa Flying
deixou um buraco na cena de selos. Quase todos os selos ingleses tiveram de fechar
suas portas, pois não estavam mais conseguindo pagar suas despesas, ou então ressurgiram
com nomes diferentes. Ao mesmo tempo, novos conceitos e idéias surgiram,
combinando elementos de trance, techno e house. Na Alemanha já existia uma cena
de músicos e produtores como Digital Sun / Tarsis, Ouija,
Earth, Ololiuqui, Shiva Chandra e muitos outros. Com o festival
Voov-Experience como o seu ponto de
encontro anual, esta nova face da cena trance rapidamente se alastrou pelo resto
da Europa. Muitos suecos se contagiaram com este achado musical e desenvolveram
a sua própria cena progressiva. O primeiro e mais conhecido deles foi o Atmos,
projeto eletrônico fundado por Tomasz Balicki. Através de um single lançado pela
Eve Records (Body Trance), ele fez
contato com Cass Autbush, que junto com James Monro estava reestruturando o selo
Flying Rhino. A música Klein
Aber Doctor do Atmos
foi um dos maiores sucessos lançados pelo Flying Rhino
até aquela data. O novo tipo de som progressivo deu à cena um novo frescor. Até
selos mais "conservadores" como o Dragonfly
renderam-se ao trance progressivo. Depois do lançamento de um álbum através do
selo Novatekk, a banda sueca Son
Kite conseguiu aumentar a plataforma para lançamentos de
mais bandas suecas. Com isso, o trance progressivo se expandiu rapidamente
pelo mundo. Paralelamente, o psy-trance conseguiu manter sua chama acessa em Israel,
graças a um novo acordo político entre Israel e a Índia que permitia aos israelenses
obterem vistos para a Índia. Como o serviço militar de Israel é muito rígido (todos,
ao completarem 18 anos, inclusive mulheres, são obrigados a servirem o exército
por pelo menos três anos), muitos jovens passaram a anciar por momentos de relaxamento
total, de preferência em locais paradisíacos. Assim, as praias da Índia foram
invadidas pelos israelenses, que passaram a desenvolver a sua própria cena psy-trance.
Rapidamente uma cena forte se estabeleceu, com DJs e músicos como Avi
Nissim, Lior Perlmutter, Analog Pussy, Har-Eil e Giu
Sebbag. O trance israelense atingiu seu pico com o lançamento
do primeiro álbum do grupo Astral Projection,
"Indoor". Em nenhum outro
lugar do mundo o psy-trance conseguiu tanta popularidade, ao ponto de tocarem
em rádios e atingirem as paradas de sucesso de Israel. A cena psy-trance
também começou a se desenvolver em outras partes do mundo. O Brasil é considerado
um país com cena forte. As primeiras raves aqui foram feitas pela WTF
(World Trance Family), uma organização que tem feito raves
em locais afastados dos centros urbanos de São Paulo. Rica
Amaral, de São Paulo, é o DJ de psy-trance mais conhecido
do Brasil. Ele também produz uma das raves de psy mais bem sucedidas do país,
a XXX-Experience. A Incense foi a primeira
festa psy-trance do Rio (residida por Kandle).
DJs como Fluorenzo, Matera, Penélope, Ricardo NS etc
também têm levado o psy-trance para várias festas do Rio e de outras cidades.
Na Austrália, Byron Bay tem organizado
as maiores raves. A cena também é forte no México, na África do Sul, na Tailândia,
no Japão, no Canadá, nos EUA, na Suíça, na Áustria, em Portugal, na Grécia etc,
e tem continuado a crescer cada vez mais em outras partes do globo. Curta
psy-trance!
*2002 Denis Kandle www.colortronic.tk
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