Denis
Kandle Minha vida musical começou
desde que eu me entendo como gente. Mas não era só um lance musical: também sempre
gostei muito de palco. Um dos meus passatempos prediletos quando eu era criança
era fingir que estava num palco, cantando ou tocando uma guitarra imaginária,
enquanto ouvia meus artistas preferidos no meu quarto. Minha primeira
paixão musical foi pelo Michael Jackson, quando eu tinha 9 anos. Eu era realmente
fascinado. Não tinha o disco dele mais recente da época, o Thriller,
mas um tio meu, que morava na minha rua, tinha. Nós morávamos na Ilha do Governador,
e eu vivia indo na casa dele só para ouvir o disco. Um belo dia ele não estava
em casa, e eu nem pensei duas vezes: roubei o disco e levei pra minha casa, sem
avisar, lógico. Quando ele ia na minha casa eu logo tratava de esconder o disco
pra que ele não notasse que estava comigo! (Acho que até hoje ele não sabe, hehe).
Eu vivia ouvindo o disco. Algumas faixas estavam até arranhadas, como a Wanna
Be Startin' Somethin' (uma das que eu mais gostava), mas
mesmo assim eu ouvia direto; era literalmente viciado! Minha mãe começou até a
ficar preocupada. Ela dizia que eu era movido à música. Além de ouvir o disco
direto, eu também adorava ver vídeo-clipes e shows do Michael Jackson. Quando
ele lançou o Bad, em 1987, eu tinha
12 anos e estava na 7ª série. O dinheiro que eu recebia de mesada não daria pra
comprar o disco. Estava ficando desesperado, até que surgiu uma oportunidade de
eu conseguir o meu objeto de desejo: a minha turma resolveu fazer um "amigo
oculto", e cada aluno poderia fazer um pedido de presente. Eu não sabia quem
era o meu amigo oculto, mas pedi que ele me desse o disco do Michael Jackson.
Na verdade eu nem estava acreditando que iria conseguir, mas ao chegar na escola,
no dia do sorteio dos presentes, tive uma bela surpresa: a Fátima, que havia me
sorteado, havia comprado o disco pra mim! Eu fiquei ultra feliz! Fátima, obrigado!!!
Agradeço você até hoje por ter me proporcionado momentos tão agradáveis com o
seu presente! =-) Nem preciso dizer que eu quase comi o disco de tão
feliz que eu estava com ele, né?... Cheguei até a mandar uma carta pro Michael
Jackson, arriscando um inglês que eu estava aprendendo na época. Não sei se ele
chegou a ler (provavelmente não...); pra falar a verdade já esperava que ele não
lesse mesmo, mas mesmo assim mandei, quem sabe, né?... Bem, os anos se
passaram e eu comecei a ouvir outros tipos de música. Naquela época não tinha
MTV nem internet, então minha única fonte de referência era o rádio. Naquela época
ouvia direto no meu walkman. Havia começado a trabalhar como estafeta em uma companhia
aérea, e quando tinha que entregar e recolher documentos pelos escritórios, o
walkman era a minha companhia preferida. Nos anos 80, a banda brasileira
que mais fazia sucesso era a Legião Urbana. Eu curtia eles, mas não era fã de
carteirinha. Isso até eu conhecer o Carlos Henrique. O apelido dele era Legião
(adivinha porquê...). Nos conhecemos em 1990, quando entrei pro 2° grau e ele
era meu colega de classe. Rolou uma afinidade quase que imediata entre nós e nos
tornamos grande amigos. Eu tinha 15 anos na época, ele era um pouco mais velho.
Obviamente, ele fez de tudo para que eu passasse a ser legionário como ele...
e acabou conseguindo. De tanto ouví-lo falar de Legião Urbana, Renato Russo, As
Quatro Estações, Que País É Este,
etc, acabei me interessando em ouvir mais a banda. Minha irmã havia comprado o
Quatro Estações, que eu nem dava bola,
mas passei a ouvir o disco e, em pouco tempo, o cupido "legionário"
me atingiu com sua flecha. Eu havia virado legionário, como eram chamados os fãs
da banda. Havia até uma certa competição entre eu e o Carlos para saber quem era
o mais legionário! Comprei todos os discos da Legião que faltavam, sabia cantar
todas as músicas de cor, tinha todas as músicas piratas em fita-cassete. Meu hobby
passou a ser ouvir as rádios só pra saber quantas vezes eles haviam tocado a Legião.
À noite, no colégio, eu me reunia com o Carlos e nós fazíamos as contas. "Hoje
ouvi Faroeste Caboclo em três rádios,
e você?" "Eu ouvi Há Tempos
cinco vezes e Pais e Filhos seis!".
O meu lance com a Legião tinha mais a ver com as letras do que com a música, na
verdade. Eu gostava das músicas também, mas achava a maioria das letras do Renato
excepcionais. Além disso, eu e o Carlos costumávamos conversar sobre as letras
e o seu significado. Isso nos deu inspiração para começarmos a escrever nossas
próprias letras de músicas. Eu cheguei a ter um caderno inteiro cheio de letras
escritas por mim, todas na linha Renato Russo, claro. Nós tínhamos tanto material
escrito que resolvemos montar uma banda. O problema era que nenhum de nós sabia
tocar violão ou guitarra na época. Eu sabia cantar e até tocava um pouco de teclado,
mas o Carlos não sabia tocar nada, então a banda só ficou na ficção.
Cheguei num ponto em que não me contentava mais em apenas ouvir
as músicas da Legião Urbana, eu também queria tocá-las, então resolvi juntar uma
grana e comprar um violão. Estava decidido a aprender a tocar as músicas deles
sozinho. Comprei aquelas revistinhas de cifras que vendiam em bancas de jornais
e tentei aprender a partir dali. No início era muito difícil. Estava quase desistindo,
quando de uma hora para outra, como num passe de mágica, passei a conseguir tocar
as notas mais básicas. Foi como aprender a andar de bicicleta: no início você
acha dificílimo, mas assim que pega o "jeito", nunca mais se esquece.
Como as músicas da Legião eram em sua maioria fáceis de tocar, fui aprendendo
a tocar a maioria delas, e com a prática, tocava violão cada vez melhor.
Eu estava com 16 anos e haveria um show da Legião em Campo Grande, bairro da zona
oeste do Rio, e eu e o Carlos decidimos que iríamos naquele show. Ficamos lá na
frente, pra ficar bem perto do palco, e o show foi incrível. Fiquei meio assustado
com a performance do Renato Russo. Ele ficava se esfregando no pedestal, fingia
que pagava boquete no microfone, e eu achei aquilo meio chocante, apesar de já
saber que ele era gay (o show foi na época em que ele resolveu "sair do armário").
Coisas de adolescente ingênuo. O show foi ótimo; a única coisa que não gostei
é que, quando eles tocaram Geração Coca-Cola,
uma das mais agitadas, um grupo começou a pogar na minha frente e um cara deu
um soco na minha boca que eu quase desmaiei! Nem vi quem foi, eram muitas pessoas
pulando e se esbarrando umas nas outras, e eu nem fiquei com raiva desse cara,
afinal sabia que ele não havia feito por mal (sabia que era homem pois só havia
homens na roda de pogo), mas a minha boca chegou a ficar inchada! | Mais ou menos na mesma
época eucomecei a me interessar bastante por uma banda technopop,
o Information Society. Adorava a música eletrônica deles com aquele ar meio pop,
me fascinava. Passei a ser tão fã deles quanto da Legião, só que aqui eu curtia
mais as músicas do que as letras. O Carlos não me acompanhou nessa onda, apesar
de também cutir o InSoc. Chegamos até a irmos juntos no show deles que houve no
Maracãnazinho. Eu fui com uma camisa pintada por mim com o logo da banda e uma
réplica de um autógrafo do Kurt Harland que eu havia pego pessoalmente quando
o InSoc veio ao Brasil pela primeira vez, para o Rock in Rio II. Como eu trabalhava
no aeroporto, tinha acesso à área de desembarque onde só os passageiros podiam
ficar. Ele veio de patins no avião! Achei aquilo surreal. Ele estava ouvindo walkman
e andando de patins ao redor da sua bagagem. Eu o interrompi e pedi para que ele
me desse um autógrafo, em inglês. Ele pareceu não ter gostado de ter sido "molestado".
Resmungou algumas palavras que eu não entendi e assinou o papel pra mim. Eu fiquei
tão orgulhoso! Nem liguei pro mau humor dele. Guardava o autógrafo na minha carteira
e mostrava para todos os meus amigos, que obviamente cagavam praquele pedaço de
papel. Mas pra mim tinha muito valor! O curioso é que, anos depois, quando eu
morava em Londres, passei a montar o Tranzine e entrevistei o Kurt por e-mail!
A entrevista pode ser lida online - (tranzine.democlub.com/1.insoc.html) . O Information Society
não foi a única banda que eu vi e/ou peguei autógrafo no aeroporto. Como disse
antes, eu trabalhava lá, então vivia vendo bandas embarcando e desembarcando.
Uma vez e eu um colega de trabalho, o Marcos, vimos a Legião Urbana no setor de
embarque! Eu quase tive um troço. "Marcos, olha lá, o Renato Russo! Eu tenho
que ir lá falar com ele e pegar um autógrafo!" Catei uma folha de papel em
branco, arranjei uma caneta e lá fomos nós. "Oi, Renato, você pode nos dar
um autógrafo?" Ele nos atendeu prontamente e foi simpático. Nós até começamos
a bater um papo. Ele disse que estava super resfriado, por isso estava vestindo
uma jaqueta de couro, sendo que estava fazendo um calor do cão no Rio. Aproveitei
e pedi pra ele assinar outro papel, para um amigo meu (o Carlos Henrique). Quando
cheguei naquela dia no colégio, fui até ele e disse: "Adivinha o que eu tenho
aqui? Um autógrafo do Renato Russo personalidado pra você!" Ele não acreditou,
de verdade! Achou que eu estava zoando a cara dele, mas quando mostrei o autógrafo
ele acreditou, pois ele conhecia a caligrafia do Renato e reconheceu a assinatura.
Ele não cabia em si de contentamento! Infelizmente roubaram o meu autógrafo numa
praia de Natal; eu havia deixado a carteira (que tinha o autógrafo dentro) na
areia e entrei na água; pensei que não haveria problema, já que ali perto, na
areia mesmo, havia um grupo de umas 15 ou 16 pessoas jogando futebol; quando retornei
haviam levado tudo meu, e todos os jogadores haviam sumido! Surreal.
Bem, no mesmo ano, eu acho, a MTV começou a ser exibida no Brasil, que na época
era em VHF, canal aberto. Pronto, fudeu - fiquei viciado! A MTV daquela época
era beeeeeem melhor do que hoje em dia, diga-se de passagem. Era tão boa que meu
hobby era gravar vídeo-clipes. Tinha fitas e fitas de vídeos, com os mais variados
artistas em evidência na época: Adamski, Dee Lite, C+C Music Factory, Erasure,
Madonna... Curtia todos eles, mas nenhum havia me pego do mesmo jeito que a Legião
e o Information... Achava que eram apenas bons artistas pop, e só. Até que eu
vi um video-clipe que iria mudar a minha vida. Era um rock pesado e ao mesmo tempo
melodioso que me hipnotizou desde a primeira audição. O clipe era num estúdio
simulando uma quadra de basquete, com uma arquibancada cheia de pessoas e uma
banda tocando. No final do clipe, todo mundo estava pulando e se jogando em cima
do outro, e o guitarrista pegou a guitarra e começou a batê-la contra o chão,
deixando tudo em pedaços. Amei a música. Amei a banda. Amei o clip. No final apareceram
os créditos - Artista: Nirvana; Música:
Smells Like Teen Spirit. Quando o clipe
acabou, eu estava literalmente de boca aberta. Era tão bom, soava tão diferente
de tudo que eu já havia ouvido, e ao mesmo tempo me tocou muito. Imediatamente
retornei a fita e vi o clipe de novo, várias e várias vezes. Há muito tempo eu
não ouvia uma música tão contagiante. Naquela época, diga-se de passagem,
eu tinha o maior preconceito com rock pesado. As bandas em evidência eram Guns'N'Roses,
Skid Row, Poison, Metallica, e eu achava que todas elas tinham um visual super
brega e cafona, com poucas músicas boas. Até curtia Sweet
Child O'Mine e In a Darkened Room,
mas não era na verdade fã daquelas bandas. Mas o Nirvana era algo totalmente novo
pra mim. Eu estava até preocupado, pois a música simplesmente não saía da minha
cabeça. Tinha medo que se tratasse apenas de mais uma banda de um hit só, mas
quando ouvi a segunda música de trabalho deles, Come As You
Are, vi que esse não era o caso. As músicas me hipnotizavam,
era como se eu fosse um ratinho seguindo um tocador de flautas pelas ruas de uma
cidade medieval. Eu estava começando a achar que iria virar um grande fã daquela
banda. Mas não parou por aí. Logo em seguida, vi outro video que me
fascinaria quase tanto quanto Smells Like Teen Spirit:
era Give It Away, do Red Hot Chili
Peppers. Também adorei aquela música! Eu estava me tornando fã de rock. Fui para
o colégio e disse para mim mesmo: "Vou chegar em casa e ligar na MTV; se
o primeiro clipe de rock que eu ouvir me conquistar como estes me conquistaram,
vou passar a pesquisar mais bandas de rock e cair de cabeça!" Bem, voltei
pra casa e liguei a TV. Parece que foi conspiração dos deuses: estava passando
o programa Lado B e o primeiro clipe
que eu vi era simplemente maravilhoso! - Head Like a Hole,
do Nine Inch Nails. Ao ouvir aquela música, senti que estava num ponto divisor
de águas da minha vida: dali para frente, eu seria outra pessoa!...
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