PARTE I

O Mundo Dominado!
Anos 60 - A Década da Contestação
Discografia Básica
História do Psy-trance
Colortronic
Plantas do Saber
Jesus era Gay?
Music is my Life!
Perguntas Básicas para Edinho
Isso é a Febre do Rato!
Fotos Trash
Hematocele



::: LIVRO DE VISITAS :::
::: EDIÇÕES ANTERIORES :::

Colortronic
Aliencore
New Age Punk





©2002 tranzine
rio de janeiro

 

Denis Kandle

Minha vida musical começou desde que eu me entendo como gente. Mas não era só um lance musical: também sempre gostei muito de palco. Um dos meus passatempos prediletos quando eu era criança era fingir que estava num palco, cantando ou tocando uma guitarra imaginária, enquanto ouvia meus artistas preferidos no meu quarto.

Minha primeira paixão musical foi pelo Michael Jackson, quando eu tinha 9 anos. Eu era realmente fascinado. Não tinha o disco dele mais recente da época, o
Thriller, mas um tio meu, que morava na minha rua, tinha. Nós morávamos na Ilha do Governador, e eu vivia indo na casa dele só para ouvir o disco. Um belo dia ele não estava em casa, e eu nem pensei duas vezes: roubei o disco e levei pra minha casa, sem avisar, lógico. Quando ele ia na minha casa eu logo tratava de esconder o disco pra que ele não notasse que estava comigo! (Acho que até hoje ele não sabe, hehe). Eu vivia ouvindo o disco. Algumas faixas estavam até arranhadas, como a Wanna Be Startin' Somethin' (uma das que eu mais gostava), mas mesmo assim eu ouvia direto; era literalmente viciado! Minha mãe começou até a ficar preocupada. Ela dizia que eu era movido à música. Além de ouvir o disco direto, eu também adorava ver vídeo-clipes e shows do Michael Jackson. Quando ele lançou o Bad, em 1987, eu tinha 12 anos e estava na 7ª série. O dinheiro que eu recebia de mesada não daria pra comprar o disco. Estava ficando desesperado, até que surgiu uma oportunidade de eu conseguir o meu objeto de desejo: a minha turma resolveu fazer um "amigo oculto", e cada aluno poderia fazer um pedido de presente. Eu não sabia quem era o meu amigo oculto, mas pedi que ele me desse o disco do Michael Jackson. Na verdade eu nem estava acreditando que iria conseguir, mas ao chegar na escola, no dia do sorteio dos presentes, tive uma bela surpresa: a Fátima, que havia me sorteado, havia comprado o disco pra mim! Eu fiquei ultra feliz! Fátima, obrigado!!! Agradeço você até hoje por ter me proporcionado momentos tão agradáveis com o seu presente! =-)

Nem preciso dizer que eu quase comi o disco de tão feliz que eu estava com ele, né?... Cheguei até a mandar uma carta pro Michael Jackson, arriscando um inglês que eu estava aprendendo na época. Não sei se ele chegou a ler (provavelmente não...); pra falar a verdade já esperava que ele não lesse mesmo, mas mesmo assim mandei, quem sabe, né?...

Bem, os anos se passaram e eu comecei a ouvir outros tipos de música. Naquela época não tinha MTV nem internet, então minha única fonte de referência era o rádio. Naquela época ouvia direto no meu walkman. Havia começado a trabalhar como estafeta em uma companhia aérea, e quando tinha que entregar e recolher documentos pelos escritórios, o walkman era a minha companhia preferida.

Nos anos 80, a banda brasileira que mais fazia sucesso era a Legião Urbana. Eu curtia eles, mas não era fã de carteirinha. Isso até eu conhecer o Carlos Henrique. O apelido dele era Legião (adivinha porquê...). Nos conhecemos em 1990, quando entrei pro 2° grau e ele era meu colega de classe. Rolou uma afinidade quase que imediata entre nós e nos tornamos grande amigos. Eu tinha 15 anos na época, ele era um pouco mais velho. Obviamente, ele fez de tudo para que eu passasse a ser legionário como ele... e acabou conseguindo. De tanto ouví-lo falar de Legião Urbana, Renato Russo,
As Quatro Estações, Que País É Este, etc, acabei me interessando em ouvir mais a banda. Minha irmã havia comprado o Quatro Estações, que eu nem dava bola, mas passei a ouvir o disco e, em pouco tempo, o cupido "legionário" me atingiu com sua flecha. Eu havia virado legionário, como eram chamados os fãs da banda. Havia até uma certa competição entre eu e o Carlos para saber quem era o mais legionário! Comprei todos os discos da Legião que faltavam, sabia cantar todas as músicas de cor, tinha todas as músicas piratas em fita-cassete. Meu hobby passou a ser ouvir as rádios só pra saber quantas vezes eles haviam tocado a Legião. À noite, no colégio, eu me reunia com o Carlos e nós fazíamos as contas. "Hoje ouvi Faroeste Caboclo em três rádios, e você?" "Eu ouvi Há Tempos cinco vezes e Pais e Filhos seis!". O meu lance com a Legião tinha mais a ver com as letras do que com a música, na verdade. Eu gostava das músicas também, mas achava a maioria das letras do Renato excepcionais. Além disso, eu e o Carlos costumávamos conversar sobre as letras e o seu significado. Isso nos deu inspiração para começarmos a escrever nossas próprias letras de músicas. Eu cheguei a ter um caderno inteiro cheio de letras escritas por mim, todas na linha Renato Russo, claro. Nós tínhamos tanto material escrito que resolvemos montar uma banda. O problema era que nenhum de nós sabia tocar violão ou guitarra na época. Eu sabia cantar e até tocava um pouco de teclado, mas o Carlos não sabia tocar nada, então a banda só ficou na ficção.

Cheguei num ponto em que não me contentava mais em apenas
ouvir as músicas da Legião Urbana, eu também queria tocá-las, então resolvi juntar uma grana e comprar um violão. Estava decidido a aprender a tocar as músicas deles sozinho. Comprei aquelas revistinhas de cifras que vendiam em bancas de jornais e tentei aprender a partir dali. No início era muito difícil. Estava quase desistindo, quando de uma hora para outra, como num passe de mágica, passei a conseguir tocar as notas mais básicas. Foi como aprender a andar de bicicleta: no início você acha dificílimo, mas assim que pega o "jeito", nunca mais se esquece. Como as músicas da Legião eram em sua maioria fáceis de tocar, fui aprendendo a tocar a maioria delas, e com a prática, tocava violão cada vez melhor.

Eu estava com 16 anos e haveria um show da Legião em Campo Grande, bairro da zona oeste do Rio, e eu e o Carlos decidimos que iríamos naquele show. Ficamos lá na frente, pra ficar bem perto do palco, e o show foi incrível. Fiquei meio assustado com a performance do Renato Russo. Ele ficava se esfregando no pedestal, fingia que pagava boquete no microfone, e eu achei aquilo meio chocante, apesar de já saber que ele era gay (o show foi na época em que ele resolveu "sair do armário"). Coisas de adolescente ingênuo. O show foi ótimo; a única coisa que não gostei é que, quando eles tocaram
Geração Coca-Cola, uma das mais agitadas, um grupo começou a pogar na minha frente e um cara deu um soco na minha boca que eu quase desmaiei! Nem vi quem foi, eram muitas pessoas pulando e se esbarrando umas nas outras, e eu nem fiquei com raiva desse cara, afinal sabia que ele não havia feito por mal (sabia que era homem pois só havia homens na roda de pogo), mas a minha boca chegou a ficar inchada!

Mais ou menos na mesma época eucomecei a me interessar bastante por uma banda technopop, o Information Society. Adorava a música eletrônica deles com aquele ar meio pop, me fascinava. Passei a ser tão fã deles quanto da Legião, só que aqui eu curtia mais as músicas do que as letras. O Carlos não me acompanhou nessa onda, apesar de também cutir o InSoc. Chegamos até a irmos juntos no show deles que houve no Maracãnazinho. Eu fui com uma camisa pintada por mim com o logo da banda e uma réplica de um autógrafo do Kurt Harland que eu havia pego pessoalmente quando o InSoc veio ao Brasil pela primeira vez, para o Rock in Rio II. Como eu trabalhava no aeroporto, tinha acesso à área de desembarque onde só os passageiros podiam ficar. Ele veio de patins no avião! Achei aquilo surreal. Ele estava ouvindo walkman e andando de patins ao redor da sua bagagem. Eu o interrompi e pedi para que ele me desse um autógrafo, em inglês. Ele pareceu não ter gostado de ter sido "molestado". Resmungou algumas palavras que eu não entendi e assinou o papel pra mim. Eu fiquei tão orgulhoso! Nem liguei pro mau humor dele. Guardava o autógrafo na minha carteira e mostrava para todos os meus amigos, que obviamente cagavam praquele pedaço de papel. Mas pra mim tinha muito valor! O curioso é que, anos depois, quando eu morava em Londres, passei a montar o Tranzine e entrevistei o Kurt por e-mail! A entrevista pode ser lida online - (tranzine.democlub.com/1.insoc.html)
.
O Information Society não foi a única banda que eu vi e/ou peguei autógrafo no aeroporto. Como disse antes, eu trabalhava lá, então vivia vendo bandas embarcando e desembarcando. Uma vez e eu um colega de trabalho, o Marcos, vimos a Legião Urbana no setor de embarque! Eu quase tive um troço. "Marcos, olha lá, o Renato Russo! Eu tenho que ir lá falar com ele e pegar um autógrafo!" Catei uma folha de papel em branco, arranjei uma caneta e lá fomos nós. "Oi, Renato, você pode nos dar um autógrafo?" Ele nos atendeu prontamente e foi simpático. Nós até começamos a bater um papo. Ele disse que estava super resfriado, por isso estava vestindo uma jaqueta de couro, sendo que estava fazendo um calor do cão no Rio. Aproveitei e pedi pra ele assinar outro papel, para um amigo meu (o Carlos Henrique). Quando cheguei naquela dia no colégio, fui até ele e disse: "Adivinha o que eu tenho aqui? Um autógrafo do Renato Russo personalidado pra você!" Ele não acreditou, de verdade! Achou que eu estava zoando a cara dele, mas quando mostrei o autógrafo ele acreditou, pois ele conhecia a caligrafia do Renato e reconheceu a assinatura. Ele não cabia em si de contentamento! Infelizmente roubaram o meu autógrafo numa praia de Natal; eu havia deixado a carteira (que tinha o autógrafo dentro) na areia e entrei na água; pensei que não haveria problema, já que ali perto, na areia mesmo, havia um grupo de umas 15 ou 16 pessoas jogando futebol; quando retornei haviam levado tudo meu, e todos os jogadores haviam sumido! Surreal.

Bem, no mesmo ano, eu acho, a MTV começou a ser exibida no Brasil, que na época era em VHF, canal aberto. Pronto, fudeu - fiquei viciado! A MTV daquela época era beeeeeem melhor do que hoje em dia, diga-se de passagem. Era tão boa que meu hobby era gravar vídeo-clipes. Tinha fitas e fitas de vídeos, com os mais variados artistas em evidência na época: Adamski, Dee Lite, C+C Music Factory, Erasure, Madonna... Curtia todos eles, mas nenhum havia me pego do mesmo jeito que a Legião e o Information... Achava que eram apenas bons artistas pop, e só. Até que eu vi um video-clipe que iria mudar a minha vida. Era um rock pesado e ao mesmo tempo melodioso que me hipnotizou desde a primeira audição. O clipe era num estúdio simulando uma quadra de basquete, com uma arquibancada cheia de pessoas e uma banda tocando. No final do clipe, todo mundo estava pulando e se jogando em cima do outro, e o guitarrista pegou a guitarra e começou a batê-la contra o chão, deixando tudo em pedaços. Amei a música. Amei a banda. Amei o clip. No final apareceram os créditos - Artista:
Nirvana; Música: Smells Like Teen Spirit. Quando o clipe acabou, eu estava literalmente de boca aberta. Era tão bom, soava tão diferente de tudo que eu já havia ouvido, e ao mesmo tempo me tocou muito. Imediatamente retornei a fita e vi o clipe de novo, várias e várias vezes. Há muito tempo eu não ouvia uma música tão contagiante.

Naquela época, diga-se de passagem, eu tinha o maior preconceito com rock pesado. As bandas em evidência eram Guns'N'Roses, Skid Row, Poison, Metallica, e eu achava que todas elas tinham um visual super brega e cafona, com poucas músicas boas. Até curtia
Sweet Child O'Mine e In a Darkened Room, mas não era na verdade fã daquelas bandas. Mas o Nirvana era algo totalmente novo pra mim. Eu estava até preocupado, pois a música simplesmente não saía da minha cabeça. Tinha medo que se tratasse apenas de mais uma banda de um hit só, mas quando ouvi a segunda música de trabalho deles, Come As You Are, vi que esse não era o caso. As músicas me hipnotizavam, era como se eu fosse um ratinho seguindo um tocador de flautas pelas ruas de uma cidade medieval. Eu estava começando a achar que iria virar um grande fã daquela banda.

Mas não parou por aí. Logo em seguida, vi outro video que me fascinaria quase tanto quanto
Smells Like Teen Spirit: era Give It Away, do Red Hot Chili Peppers. Também adorei aquela música! Eu estava me tornando fã de rock. Fui para o colégio e disse para mim mesmo: "Vou chegar em casa e ligar na MTV; se o primeiro clipe de rock que eu ouvir me conquistar como estes me conquistaram, vou passar a pesquisar mais bandas de rock e cair de cabeça!" Bem, voltei pra casa e liguei a TV. Parece que foi conspiração dos deuses: estava passando o programa Lado B e o primeiro clipe que eu vi era simplemente maravilhoso! - Head Like a Hole, do Nine Inch Nails. Ao ouvir aquela música, senti que estava num ponto divisor de águas da minha vida: dali para frente, eu seria outra pessoa!...
COMENTÁRIOS?

Página anterior: JESUS ERA GAY?
Próxima página:
PERGUNTAS BÁSICAS PARA EDINHO