A utilização de substâncias naturais que potencializam a percepção é uma prática
milenar presente em várias culturas, do extremo oriente à América. Na Europa,
por exemplo, os que se utilizavam das plantas do saber
foram perseguidos durante a Inquisição. Na América do Sul, entre os incas, o uso
da aiuasca, uma bebida sagrada, veículo
para o êxtase e a revelação, era reservado apenas à família real e personalidades
de extremo destaque.
A aiuasca,
hoje em dia conhecida como daime, é usada para se atingir o autoconhecimento a
partir de mirações, quando o iniciado vislumbra suas possibilidades de integração
ao cosmos, ou seja: a religação criador-criatura.
O homem criou vários
recursos para locomover-se fisicamente na terra, na água e no ar. Da mesma forma,
a alma também pode dispor de diferentes elementos para transportar-se a regiões
praticamente inacessíveis e as plantas do saber
nos possibilitam abrir as portas de nosso inconsciente, ampliando os níveis de
nossa percepção. É por causa disso que todas as plantas do
saber foram praticamente extintas na Europa durante a Inquisição.
Havia na Europa pré-cristã todo um legado neste sentido que mais tarde foi visto
como feitiçaria, bruxaria. Por exemplo, Papai Noel é uma "miração".
Este mito tem origem na Lapônia, onde aqueles pastores de renas tomavam a amanita
muscaria, que é um cogumelo vermelho com bolinhas brancas.
Na noite de Natal, sob o efeito deste cogumelo, tinham uma "miração",
visualizando durante o transe a figura de um homem velho, de barbas brancas e
roupa vermelha, distribuindo presente para as crianças.
Miração é um
estado de percepção extra-sensorial, no qual podemos ter acesso a revelações sobre
o nosso próprio ser. Ela é um dos estados alterados da consciência, mas a palavra
alterado geralmente tem uma interpretação
negativa pela maioria das pessoas. Há uma diferença entre "alucinação"
e "miração". A alucinação é um produto de um estado psicopatológico.
Ela ocorre nos processos de esquizofrenia paranóide, na psicose maníaco-depressiva,
em vários tipos de psicose. É caracterizada pela psiquiatria como a percepção
sem objeto, normalmente produto de uma mente em estado fragmentado. A "miração"
é justamente o contrário, é produto da expansão da consciência, o resultado da
reunião de dados que obtemos em estado de percepção extra-sensorial. Geralmente
são revelações profundas que a pessoa obtém sobre si própria. A "miração"
é a prática de um ato de conhecimento, a prática e o resultado deste ato, que
acontece na relação do indivíduo consigo menso, com seus semelhantes e com o cosmos,
a totalidade. Numa alucinação, o delírio é totalmente desordenado, a pessoa é
possuída por ele, não sabe se o que está acontecendo é verdade ou não. Já a miração
é a meta-realidade, a realidade em outra dimensão. É uma experiência agradável,
a sensação é de êxtase, alegria.
Os cientistas enviam telescópios espaciais
para fora da órbita terrestre para que eles nos tragam informações que só podem
ser conseguidas daquele ponto de observação. Da mesma forma, é importante sairmos
do nosso cotidiano, da nossa superfície, dos nossos pensamentos habituais para
podermos chegar a instância superiores que nos proporcionam a revelação.