Estamos novamente
diante de um "inimigo" que deve ser combatido. Campanhas e mais campanhas
estão sendo veiculadas na mídia. O inimigo precisa ser vencido. Talvez devêssemos
perguntar: Quem é o inimigo? Como no relato bíblico, Abel considerado
privilegiado aos olhos do seu próprio irmão, acaba sendo assassinado por este.
Nesse relato o inimigo era conhecido, ao contrário, em nosso contexto o inimigo
tornou-se alguém predeterminado por outrem. Não conhecemos sequer seus gostos,
atividades e principalmente o porquê do ódio e o fazemos sem ao menos questionar.
Em virtude disso, cabe perguntar: em que se baseia tal ódio? Não seria meramente
uma questão de reafirmação de poder? Será que os fundamentos de Hitler para justificar
matança (de judeus, homossexuais e outros) foram questionados na época? No entanto,
ainda nos horrorizamos em ouvir os relatos das barbáries praticadas. Os motivos?
Segundo a teoria de Hitler, havia uma raça que era superior e que esta deveria
ser purificada e a única a existir para que o mundo fosse melhor. Todo aquele
que não fosse ariano ou contrário às determinações do regime nazista era um empecilho.
Estava identificado o inimigo. Milhares de pessoas foram mortas em nome deste
ideal! E quantos ainda terão que morrer para satisfazer a um único "idealista"?
É curioso, o inimigo mudou, o mocinho também, mas o argumento é bastante
semelhante. Destruo o meu inimigo para que ele não nos destrua. Em toda a natureza
não se ouve falar de coisa parecida. Nenhum inseto extermina amplamente outro
dentro de sua própria espécie. Mas nós, seres pensantes, além de praticar tal
façanha, ainda nos damos o luxo de ignorar o que está por trás disso. E nos dizem:
matem! E matamos. Somos belos "recrutas"a serviço dos poderosos e a
estes damos nosso apoio incondicional. Imaginem o dia em que nos recusássemos
a ir para a guerra, como seria? E se as mães dissessem: não geraremos mais filhos
para a guerra! ou talvez poderíamos simplesmente perguntar a quem nos ordena:
por que estou indo lutar? Este sem dúvida, seria o acontecimento do século! Poderíamos
fazer mais do que simplesmente carregar uma bandeira pedindo paz. Deveríamos usar
a inscrição: "não lutaremos, estamos em greve por uma geração". Se pudéssemos
ignorar o prazo de validade dos mísseis do mocinho e deixar que ele perdesse milhares
de dólares, ao invés de perdermos milhares de vidas, seríamos mais poderosos do
que o próprio mocinho, pois sem os soldados o general não é nada. E no futuro
poderíamos contar aos nossos filhos e netos que há um tempo atrás nos recusamos
a praticar genocídio de forma passiva, por não nos manifestarmos ou de forma ativa,
indo para as guerras. Ensinaríamos a eles o verdadeiro valor da vida humana que
um dia valeu menos que um punhado de dinheiro ou um monte de armas prestes a sair
da validade. Eles aprenderiam sobre o perigo de apenas obedecer a alguém somente
porque este possui poder e dinheiro a ponto permitir que nossa empatia fique embotada.
Talvez pudéssemos a partir destas atitudes aprender a identificar quem são nossos
inimigos de fato. A intolerância, a ignorância, a obediência cega. Não
existe maior inimigo do que nós mesmos, enquanto nos permitirmos enxergar com
olhos preconceituosos e alheios. Lana Hosser lanahosser@hotmail.com |