As raves são proibidas
na Inglaterra, medida essa tomada por políticos conservadores que acham que por
proibir as festas irão diminuir o consumo de drogas (ou eles são muito iludidos
ou essa é uma desculpa barata...). Aliás infelizmente o Brasil, pelo menos o Rio,
também está tomando o mesmo rumo, e isso me deixa revoltado. Mas é óbvio
que eu não deixaria de ir a uma rave durante minha visita à Inglaterra só por
causa da proibição... Lá eles preferem chamar estas festas de squat-party.
Squats são casas e apartamentos abandonados na Inglaterra que são invadidos por
pessoas não dispostas a pagar aluguel... Muitas dessas pessoas que vivem nos squats
estão ligados à cultura da música eletrônica, e por isso eles levam fama de produzirem
as melhores festas, porque elas são totalmente underground! O esquema
dessas squat-parties é o seguinte: eles obviamente não fazem flyers nem divulgam
a festa na mídia. O endereço da festa só é divulgado horas antes de acontecer,
através de um número de celular que é divulgado boca-a-boca. Felizmente eu conheço
um brasileiro, o Rodrigo, que vai em todas as squat-parties de Londres, e ele
me passou o telefone. Só que eu liguei e não entendi nada que a gravação dizia!
Tipo, se a rave fosse no posto 9 da praia de Ipanema, a gravação diria mais ou
menos o seguinte: "A parada é no 9, pega o 175 que passa em frente".
Imagina um estrangeiro ou até mesmo um português ou um brasileiro que não é do
Rio ouvindo isso... Não ia entender nada, né?... A solução foi ligar pro Rodrigo
e pedir pra ele me passar o endereço. Ele me disse que seria na última estação
de metrô da Jubilee Line e que quando eu chegasse lá era pra ligar pra ele de
novo que ele me daria mais detalhes. Oba!, fiquei todo contente. Peguei o último
metrô, já era quase meia-noite, e fui direto pra Stratford. Chegando lá liguei
pra ele de novo. - Fala, Rodrigo, já tô aqui em Stratford. -
Não, cara, não é em Stratford, é em STANMORE!!! Você foi pro outro lado da cidade!
Que merda!!! Não acreditei! Putz, já era madrugada, o metrô já tinha fechado
e Stanmore era longe pra caralho de onde eu tava. - Pô, vou desistir,
deixa pra semana que vem então. - Não, meu, vem de ônibus mesmo que dá!
Eu tava puto e frustrado, mas quer saber? Decidi ir assim mesmo! Fui até
o centro de Londres (levei uma hora), e depois peguei outro ônibus até Stanmore
(mais duas horas). Caralho, que sufoco! Tipo, cheguei em Stanmore (que fica na
zona 5) mais de 3 horas depois! Mas valeu a pena... Vieram mais umas
8 pessoas comigo no ônibus que também estavam indo pra rave. Quando chegamos no
ponto de ônibus passou uma van e um cara disse pra gente entrar que eles nos levariam
até a festa. Embarcamos e levamos mais uns 5 minutos até o local. Era um clube
afastado, me lembrou o sítio de Vargem Grande onde rola(va) a Bunker Rave. A área
ao redor era cheia de árvores, sem casas ou comércio por perto. A diferença era
que as pistas de dança ficavam dentro do clube (por causa do frio que faz à noite
e também pra abafar o som), com exceção do gramado onde rolava ambient music e
projeções visuais. Fiquei surpreso, imaginava
que a festa seria num local sujo, tosco, mas não! A decoração era de primeira,
muitas cores fosforecentes, panos com pinturas temáticas, tudo bem organizado...
A entrada era apenas £5, muito bom (cerca de R$25). Também me assustei com o número
de pessoas, tinha mais de 3.000, pelos meus cálculos. Fui direto pra pista de
dança mais próxima, no primeiro andar, que era pequena e decorada com tapetes
orientais, e tava rolando electro e techouse. No segundo andar, onde ficava a
maior pista, rolava psy-trance (o som tava ótimo mas a sala tava muito abafada,
mal dava pra respirar!). Numa outra pista, num galpão mais afastado, era a pista
de lenha, só techno e hard house. E como eu disse, no gramado ao ar livre a música
era ambient, tinha várias pessoas sentadas pelo chão e algumas estavam ao redor
de uma fogueira. Também tinha um lounge dentro da casa onde tava rolando uns live
PAs e outra sala com fanzines e panfletos anti-tudo-que-você-possa-imaginar, com
alguns punks e homeless, eu acho, mas essa sala tava vazia... Nem preciso
dizer que a grande maioria das pessoas estava high,
né?... Cara, vou falar uma coisa: é muito mico que algumas pessoas pagam quando
tomam muita bala... Claro que eu não tenho nada contra, tomei uma lá inclusive,
mas vi um monte de gente fora de si, com os olhos virados, alucinados, degradante
a parada... Nada a ver! Aquelas meninas bonitinhas pulando e rindo que nem umas
retardadas. Aqueles caras dançando completamente desengonçados e com o olhar inquieto,
com a mandíbula travada. Deprimente. O que adianta dizer que é PLUR* e se vestir
com roupas coloridas enquanto se ilude tomando 10 balas por rave, todo final de
semana?... Ah, por favor... Tem que saber tomar. Saúde é essencial para boas trips!
Ver essas pessoas nesse estado me deu uma certa bad trip, além do fato de
eu estar sozinho já que não consegui localizar o Rodrigo. Mas valeu a pena ter
ido lá, no final curti mais do que qualquer outra coisa. A melhor parte foi quando
o sol começou a nascer, eu deitado na grama ouvindo ambient... Amazing! ;-)
*PLUR é a sigla adotada
por ouvintes de música eletrônica que pregam paz, amor, união e respeito (Peace,
Love, Union and Respect) |