Penso, logo existo

Lana Hosser

O ato de pensar, refletir, é dom do ser humano. Quando pensamos estamos exercendo uma das características mais marcantes da nossa espécie. Quando em estado reflexivo nos envolvemos em um processo absolutamente pessoal e único, uma viagem que nos dá acesso a lugares inimagináveis.

A reflexão sobre nós mesmos e sobre o que nos rodeia nos leva ao estado crítico. Falo da boa crítica, aquela em que usamos nossa desconfiança em nosso favor, nos colocando como pessoas responsáveis pelos nossos atos.

Para isso é fundamental que conheçamos a essência das palavras. Tenho visto cada vez mais o mau uso das palavras. Estamos nos comunicando muito mal e por isso temos uma crescente queixa de que o nosso interlocutor não nos entende. Sobre isso há estudos que nos alertam para a singularidade das pessoas em se comunicar, e hoje já se sabe que algumas pessoas apreendem mais através do tato (sensibilidade corpórea, física), outras pelo ouvir e outras pelo olhar (isso pode explicar em grande parte o fracasso escolar de muitos, cuja sina é se adaptar ao método pré-estabelecido, ao invés de terem uma adaptação do método ao seu modo de se comunicar com o mundo).

Partindo do pouco conhecimento sobre a essência das palavras, vamos construindo ao longo da vida uma série distorções. Algumas distorções ocorrem mesmo intencionalmente, a cultura pode promover sentidos diversos para a mesma palavra.

Algum tempo atrás me aventurei a procurar a origem da palavra Heresia. E para minha surpresa haíresis (grego) significa capacidade de escolher. Que interessante descobrir que quando te chamavam de herege na verdade estavam te elogiando! Você que foi ou é um herege está utilizando-se de sua capacidade de escolher, não é sensacional? Mas ao longo de tanto tempo esta palavra nos soava como sendo algo ruim.Uma oposição a uma crença, com direito a fogueira e tudo!

Coincidência ou não, me chamou a atenção um artigo de capa da revista Época – por dentro do Opus Dei. Ao ler a matéria me deparei com algo que não imaginava estar acontecendo tão intensamente. Os depoimentos de ex-numerários (nome que se dá a um tipo membro) revelaram uma total manipulação e condicionamento por parte dos superiores na busca de adeptos e continuando durante o período em que os mesmos permaneciam nesta Instituição. Já que consideramos a palavra heresia, cabe que analisemos o que é um condicionamento.

Quando condicionamos um animal, estamos determinando que este animal faça algo de forma automática. Para isso, associamos dois tipos de reforços negativo ou positivo. No reforço positivo quando o animal dá a resposta que desejamos, nós o recompensamos. E assim construímos um padrão de comportamento reforçado positivamente. Já no reforço negativo dá-se o inverso. O animal quando responde de forma indesejada recebe uma punição. Esta punição fará um condicionamento tão perfeito quanto o positivo. O animal responderá sempre da mesma forma. Condicionar é uma forma de ensinar. Os animais são condicionáveis. O homem também. O condicionamento está presente na nossa rotina diária, quando crianças nós ouvimos diversas vezes a frase: se você fizer isso, vai apanhar! (reforço negativo).


Um kit de mortificação corporal semanal e por algumas horas garantem um bom condicionamento. Mas nós somos seres reflexivos e somos hereges por natureza. Que fazer para que estas capacidades não interfiram num bom condicionamento? Associemos ao condicionamento um sentimento de culpa e um reforço positivo, o paraíso, por exemplo. Desta forma, está garantido um condicionamento eficiente para seres humanos. Tal condicionamento pode durar por muito tempo, desde que seja trabalhado sistematicamente. Por isso alguns permaneceram naquela Instituição por anos, dez, vinte ou mais anos.

Confesso que o sentimento de profunda tristeza tomou conta de mim quando tomei conhecimento destes fatos. Em seguida, pensei naqueles que tinham rompido de forma brilhante e herética com esta falta de respeito com a natureza humana. E fiquei feliz de saber que a nossa humanidade é superior as tentativas de nos automatizar e perdermos o que nos faz fortes e independentes.

Nossa capacidade de transcendência nos direciona para uma religiosidade, não exatamente para uma religião, graças a Deus! Temos direito de ser hereges. Curiosamente os grandes homens que habitaram este planeta não tinham religião. Qual era a religião de Gandhi? E a de Jesus? E Buda? Para citar apenas alguns. Estes homens de que temos notícias eram hereges. Todos eles romperam com os sistemas de suas épocas. Seguiram caminhos diferentes, quebraram padrões, foram autênticos.

Muitas religiões foram criadas a partir de ensinamentos destes e de outros homens, talvez isso tenha orientado a muitos e tenha dado chance para que conhecessem coisas notáveis. Mas infelizmente os mesmos ensinamentos têm sido distorcidos por alguns numa atitude indigna e desrespeitosa para conosco. Fomos envolvidos num engodo bem articulado para acreditar no que nos dizem os respeitáveis membros desta ou daquela religião, que supostamente, têm autoridade para nos guiar. É fato que precisamos do caminho, é fato que necessitamos de apoio espiritual. Mas é fato também que precisamos preservar nossa dignidade, nossa essência crítica, reflexiva e herege.

Precisamos romper com os padrões de comportamento que não estejam de acordo com a nossa natureza humana, precisamos desconfiar daqueles que nos querem robotizar, precisamos discutir e discordar sempre que for necessário, precisamos nos libertar da escravidão psicológica. Mesmo que sejam tradicionais, se não nos respeitarem, temos que recusar. Precisamos ser audaciosos em defender nosso bem-estar, precisamos nos preservar.


“Gente quer ser feliz, Gente quer respirar ar pelo nariz, Não meu nego, não traia nunca essa força não, Essa força que mora em seu coração ...Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor” (Caetano Veloso)

Para saber mais: www.opuslivre.org (site de ex-membros da Opus Dei)

 

lanahosser@hotmail.com

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