Resquícios da Colônia

A história de um jovem empreendedor que tentou investir no Brasil e só se fudeu...
(baseado em fatos reais)

Roberto era um jovem e otimista brasileiro. Seu maior sonho era abrir seu próprio negócio, no caso um bar. Queria ser seu próprio chefe, e também queria poder contribuir para o desenvolvimento do Brasil, gerando receita e emprego para algumas dezenas de empregados. Um papel pequeno, comparando-se ao das grandes empresas, mas ainda assim um papel importante.

Só que, infelizmente, apenas as boas intenções e seu talento não foram suficientes... Antes mesmo de iniciar seu projeto, seu pai já o advertira: "Não vai dar certo". Roberto ficou indignado com o pessimismo do pai. "Puxa, eu nem comecei ainda e você já tá botando areia! Eu to querendo abrir meu próprio negócio e é esse o estímulo que você me dá?!" Mas seu pai insistiu: "Não vai dar certo por um simples motivo: porque você não é um filha da puta". Roberto não entendeu bem o que ele quis dizer. "Eu explico, meu filho: no Brasil, é praticamente impossível pessoas honestas como você conseguirem realizar coisas nesse meio de comércio sem serem escrotas, e eu sei que você não é uma pessoa sem escrúpulos, por isso que não vai dar certo". "Não tem nada a ver o que você tá falando, pai! Conheço muitas pessoas que se deram bem nos seus negócios, e se eu tenho talento e força de vontade, então eu também consigo". "Vamos ver", disse seu pai. "Vai lá, tente e depois me venha dizer como foi".

É claro que Roberto não deu bola pra ele. Tinha fé e otimismo; nada iria impedi-lo de realizar o seu sonho.

Mas antes mesmo de abrir o bar, já se deparou com o primeiro problema: havia uma série de exigências burocráticas que ele teria de cumprir antes de qualquer outra coisa. O problema é que a maioria dessas exigências eram absurdamente difíceis de cumprir e totalmente desnecessárias; era como se existissem só pra atrapalhar mesmo. Ele teria de desembolsar muito dinheiro, e achou aquilo extremamente desestimulante.

Foi agendada uma visita de um fiscal da vigilância sanitária no seu bar. Chegando lá, o fiscal viu que menos da metade das exigências haviam sido cumpridas. Chamou Roberto num canto e disse: "Olha, a lei exige que você pague multas por não ter cumprido as exigências, mas vou facilitar pra você; me vê aí metade do valor total, e eu libero seu alvará e fica tudo bem."

Roberto não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Um fiscal corrupto do governo, ao invés de incentivá-lo a começar seu negócio com todo crédito e facilidades possíveis, estava obrigando-o a começar seu negócio já de modo desonesto. Imediatamente Roberto se lembrou das palavras do seu pai. Foi então que caiu a ficha. Ele não era um escroto, mas o que poderia fazer?... Estava num mato sem cachorro: se quisesse fazer a coisa certa, simplesmente não conseguiria tocar o negócio adiante por causa dos enormes obstáculos impostos pelo governo; por outro lado, se não desse o tal "agrado" ao fiscal corrupto, também não conseguiria abrir seu negócio.

Roberto aprendeu rápido como é ser empreendedor no Brasil: ele teria que lidar com essas pessoas que só aparecem pra tentar derrubá-lo. Incentivo que é bom, nada... Sem outra opção, acabou aceitando a proposta do fiscal, mesmo não concordando. Mas era algo do qual ele não poderia escapar. É assim que as coisas funcionam no Brasil! Pena que isso era apenas o início dos tormentos...

Para fazer um bar realmente especial, Roberto resolveu que iria comprar equipamentos de última geração. Mas nada do que ele queria era vendido no Brasil, então resolveu que iria importar todo o material. Decepção número 2: ele teria que desembolsar nada mais, nada menos do que 60% do valor total de cada mercadoria em forma de taxas alfandegárias! Sua indignação era enorme. "Que sacanagem! Estou querendo incrementar meu negócio com material de primeira linha, e além de ter que importar tudo, já que não existe nada no nível que eu quero à venda no Brasil, terei que importar pagando tudo à vista, e ainda por cima terei que pagar uma multa absurda de cara, mais da metade do valor de cada mercadoria!" Como se no Brasil circulasse muito dinheiro para as pessoas conseguirem isso! Roberto pensou em como tudo seria mais fácil se fosse um europeu ou americano. Além de ter mais capital disponível, os empreendedores daqueles países ainda obtêm facilidades de crédito, como financiamento das suas compras em várias parcelas. Coitados, é porque eles são pobres... Nós aqui moramos num país rico, onde circula muito dinheiro...

Roberto sentiu na pele como é revoltante morar num país de periferia que estupidamente exige tanto dos seus cidadãos, enquanto nos países desenvolvidos existe toda uma série de estímulos e facilidades para quem quer abrir seu negócio. Não deveria ser o contrário? Ou melhor, não deveria ser fácil e estimulante pra todo mundo???

Roberto acabou tendo que desistir de fazer tais importações, pois seria simplesmente inviável. Teria que começar por baixo, com material mal acabado, e se tudo desse certo iria fazer tais importações mais à frente.

O bar então foi finalmente inaugurado. Roberto estava muito feliz com a perspectiva de finalmente ser dono do seu próprio negócio. Só que ele descobriu bem cedo que a coisa seria pior do que imaginava. Apesar de todo seu talento e faro comercial, seu negócio estava emperrado. Como seu bar era um bar de qualidade, ele não podia pôr preços muito baratos, só que por isso mesmo o bar raramente enchia, já que a maioria das pessoas não tinha dinheiro para freqüentá-lo. As dívidas começaram a aumentar, então ele foi forçado a baixar o preço das bebidas e comidas. Deu certo: começaram a vir mais pessoas e o bar começou a viver cheio, só que mesmo assim o lucro era bem pequeno. Ele praticamente trabalhava de graça, pois todo dinheiro que entrava era pra pagar contas e salários dos funcionários. Pra piorar, depois de um ano, quando seu contrato de aluguel iria vencer, foi comunicado pelo dono do estabelecimento que o preço do aluguel iria triplicar! É que com a boa freqüência do bar, o dono pensou que ele estava obtendo grandes lucros, só que não estava! Roberto tentou explicar isso pro cara, mas não adiantou: o preço iria triplicar, se ele não pudesse arcar, que saísse de lá.

As coisas iam mal para Roberto. Ele viu na prática como a engrenagem no Brasil é emperrada, e como as coisas são tão difíceis de acontecer. Tudo que obteve até agora foram preocupações, dívidas e dores de cabeça. Já não sabia mais o que fazer. Pensou em pedir dinheiro emprestado no banco, e foi o que acabou fazendo, apesar de saber que os juros seriam altíssimos e que os caras não iriam ter pena ou compaixão se ele não pagasse depois. Mas não havia outra opção: ou ele pegava um empréstimo, ou teria que fechar o bar.

O bar continuou aberto, mas não iria durar muito tempo. Dias depois, recebeu de novo a visita do fiscal da vigilância sanitária. Ele veio para fazer a inspeção anual no bar. Mas infelizmente (ou felizmente?), dessa vez Roberto não iria aceitar passivamente a situação. Ao vê-lo na sua frente, Roberto desabafou de uma vez:

"O senhor não tem vergonha na cara de fazer o que faz??? Sua consciência não o atormenta quando você põe a cabeça no travesseiro à noite? Não tem vergonha de vir aqui extorquir dinheiro de um garoto??? Um garoto que sonhava em abrir seu negócio, em fazer o país pelo qual trabalha crescer! Mas infelizmente tenho que lidar com trastes como você no meu caminho, que apesar de trabalharem para o governo, ao invés de vir aqui me dar uma força, só vem aqui pra me fuder!" O fiscal estava sem palavras. Em todos esses anos de trabalho, absolutamente ninguém havia levantado a voz contra ele; todos haviam aceitado passivamente sua imposição.

"Pois agora eu cansei", continuou Roberto. "Cansei de ser conivente com essa situação. Não vou pagar nem um centavo pra você! Não te devo nada! Retire-se daqui, agora!" O fiscal recuperou-se do susto e no alto de sua arrogância, disse: "Não adianta, meu filho. Não vai me pagar? Então você vai ter que fechar suas portas. Isso porque é impossível conseguir atender todas as exigências que a lei determina. Só se você fosse milionário! E como você não é... Você vai ter que desembolsar uma grana maior do que custa essa espelunca! É assim que a coisa funciona, quer você queira ou não!" Mas um grande senso de justiça havia se apoderado de Roberto. "Não me importa! Prefiro fechar o meu bar a ter que te dar um centavo sequer!" O fiscal o olhou dentro dos olhos e disse: "Se é assim que você quer então tudo bem. Passar bem!" Dito isso, deu uma sonora gargalhada debochada. Roberto abriu a porta, indicando que ele deveria sair dali imediatamente. O fiscal foi embora, Roberto se sentiu com a alma lavada. Pena que durou pouco tempo.

No dia seguinte outro fiscal apareceu no bar. Dessa vez ele não falou em propina. O primeiro fiscal já havia dito a ele o que acontecera no dia anterior, e disse para que ele fosse duro e inflexível no seu trato. Aplicou uma multa pesadíssima ao estabelecimento. Era simplesmente impossível de pagar.

Roberto infelizmente teve que amargar esta derrota. Com dívidas orbitantes, foi obrigado a pedir falência e a desistir de seu sonho. O bar foi fechado, os funcionários perderam seus empregos, o sonho acabou. Tudo que sobrou foram algumas economias, que Roberto usou para viajar para a Inglaterra, onde tinha alguns amigos brasileiros que trabalhavam em cozinhas de restaurante e diziam conseguir juntar bastante grana com seu trabalho pesado. E este foi o mesmo destino de Roberto. Seu país havia sido ingrato com ele, e ele teve que fugir para outro país onde pudesse ter condições dignas de construir seu futuro. Foi para Londres praticamente como um exilado, trabalhando num subemprego, passando frio, fome e saudade, dividindo quartos e esperanças com outros brasileiros que como ele, sonhavam algum dia em ver seu próprio país oferecendo condições justas para todos seus habitantes, não só para meia dúzia de privilegiados.

Roberto lamentou o fato de que ser um pequeno empresário no Brasil seja uma tarefa tão árdua, pois este é um país ingrato com seus filhos; filhos estes que torcem e fazem de tudo para ver o país crescer, filhos que dão o seu sangue pro desenvolvimento do país, mas não recebem o menor apoio do governo; pelo contrário, parece até que o governo não quer que eles dêem certo...

É como Visconde de Mauá, o primeiro grande empreendedor do Brasil, que trouxe a energia elétrica, a primeira estrada de ferro e abriu o primeiro banco do Brasil, mas mesmo assim foi pisoteado e escorraçado, tendo que sair do Brasil falido, com uma mão na frente e outra atrás, para só então poder recuperar lá fora todo dinheiro que havia perdido apostando no seu próprio país.


"Dos filhos deste solo
És mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!"

Denis Kandle

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