(publicado
na íntegra no Caderno Mais! da
Folha de São Paulo de 07/01/07)
O que
define a genialidade em arte? Uma
primeira aproximação é a
permanência no tempo. A obra de
arte genial encerra o dom da
perpétua revivescência - ela
dribla de algum modo o efeito
debilitador da passagem do tempo
e adquire o poder de dizer coisas
novas e reveladoras a sucessivas
gerações de apreciadores.
No que consiste a genialidade de
Mozart? Perícia técnica e apuro
formal fazem parte da resposta,
mas estão longe de esgotá-la. O
legado de Mozart, ouso crer, é
não só o coroamento de um
percurso estético, mas a
expressão musical mais viva e
contundente das crenças, valores
e sonhos de um tempo que
"ousou saber" - de um
projeto transformador que fez da
luta e da emancipação
intelectual e moral dos
indivíduos sua grande bandeira.
"Aquele que tem ciência e
arte", refletiu Goethe,
"tem também religião; quem
não tem nenhuma delas, que tenha
religião!" Há muito de
arte na ciência e ciência na
arte. As maiores realizações do
espírito humano são totalidades
complexas que não respeitam as
convenções da linguagem e
demarcações burocráticas do
saber. O valor de uma criação
artística, em qualquer gênero,
combina elementos sensíveis,
emocionais e cognitivos. O prazer
e encanto dos sentidos é apenas
a porta de acesso para uma
experiência de fruição que
mobiliza um amplo espectro de
faculdades da mente -
sensibilidade e razão, intelecto
e emoção.
Adam Smith, filósofo escocês,
traça um paralelo entre o poder
da música, de um lado, e aquele
proporcionado pelo estudo de uma
ciência teórica, de outro:
"Quando contemplamos aquela
imensa variedade de sons
agradáveis e melodiosos,
organizados e assimilados de
acordo com sua harmonia e
sucessão, formando um sistema
regular e completo, a mente na
realidade experimenta não apenas
um prazer sensível muito grande,
mas também um prazer intelectual
intenso, semelhante àquele que
ela traz ao contemplar um grande
sistema em qualquer
ciência."
A natureza é um princípio
racional e como expressão de uma
inteligência transcendente e
benévola. Perfeição é quando
o bem, o belo e o verdadeiro -
ética, estética e ciência -
convergem harmoniosamente.
Leibniz descreve a música como
"um exercício inconsciente
de matemática no qual a mente
efetua cálculos sem se dar conta
do que está fazendo".
A estrutura matemática e o apego
à simetria formal das
composições de Mozart
transparece mesmo para aqueles
que não possuem qualquer treino
em música. O que a música
infunde na alma receptiva é um
estado de exaltação do ânimo -
um sentimento de confiança
cósmica - que redime o universo
e reafirma a existência por si
mesma, independente de qualquer
razão ou juízo reflexivo.
Tônico metafísico, música das
esferas. Ao som dessas notas, o
cosmos baila e o sentido irrompe
do firmamento. Acima de tudo que
conheço, reverencio ou posso
conceber, a vibração pulsante e
a perfeição melódica destes
sons traduzem, aos meus ouvidos,
a idéia de um universo bom. O
que pode qualquer doutrina ou
religião instituída, calcada no
miasma do verbo, diante da
verdade infinita que emana da sua
música?
Na obra de Mozart sentimos pulsar
a força da crença, senão da
existência, pelo menos na
possibilidade de existência de
uma ordem cósmica que nos
transcende. Alguma coisa muito
além da nossa capacidade de
compreensão, mas que nos é
facultado entrever ou intuir no
contato com o universo da
música. Que a esperança viril e
o ânimo luminoso dessa arte
estejam conosco na difícil
jornada que o século 21
prenuncia.
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