Som - A Expressão da Criação

Desde as antigas religiões às modernas teorias da física quântica, o princípio da Unicidade que o som reflete sempre esteve associado às idéias da origem do Universo

Antes de tudo, é preciso termos uma noção básica dos princípios que regem a produção do som, da acústica e da música.

Como se produz um som? Produzimos um som colocando um corpo em vibração. As moléculas do ar vão se ''empurrando'' e ''carregando'' a onda sonora até nossos ouvidos. A maneira como essa propagação ocorre é muito semelhante à das ondas que se formam quando jogamos, por exemplo, uma pedra num lago.

Como percebemos um som? Em nosso aparelho auditivo há uma membrana chamada ''tímpano''. Ele reproduz as vibrações que, após passarem por uma série de câmaras, líquidos, cílios, ossos minúsculos e células, são transformadas em impulsos elétricos levados até o cérebro, onde são decodificados. Só então podemos dizer que ouvimos um som. Portanto, em vez de dizermos por aí que ''fulano tem bom ouvido'', deveríamos dizer que ''fulano tem bom cérebro'', uma vez que quem realmente ouve é o cérebro (na verdade a consciência por trás dele).

PROPRIEDADES DO SOM

Quando tocamos, por exemplo, a nota Lá no violão, estamos fazendo a corda vibrar de um extremo ao outro. Cada vez que ela passa pelo ponto de partida, dizemos que completou um ciclo.

A velocidade desta vibração é medida em ciclos por segundo ou Hertz (Hz), neste casso, 440 Hz. Quanto maior o número de ciclos por segundo, mais aguda será a nota. Eis a 1ª das quatro propriedades do som: altura. O que sentimos por notas graves e agudas são, portanto, corpos vibrando em velocidades mais lentas ou mais rápidas.

O ouvido humano percebe vibrações em torno de 20Hz a 16.000Hz (16Khz). Abaixo de 20Hz, chamamos de infra-som. Os elefantes utilizam-se dessas vibrações para se comunicar. Quando se manifestam acima de 16Khz, chamamos essas vibrações de ultra-som, som que é percebido pelos cachorros.

Tocando a mesma nota duas vezes, uma de modo fraquinho e a outra de maneira muito forte, percebemos a 2ª propriedade do som: intensidade, mais conhecida como volume, medida em Decibéis (dB). É fácil perceber essa pressão sonora que chamamos de volume quando falamos baixo e quando falamos alto, ou seja, forte. Um show de rock, um trio elétrico, ou uma escola de samba atingem facilmente os 110dB, sendo que o limite aceitável (ou aconselhável...) para o ouvido humano gira em torno de 80dB.

Tocando a mesma nota duas vezes, com a mesma altura e intensidade (ex: Dó - 800Hz e 70dB), só que tocando uma durando 2 segundos e a outra 30 segundos, chegamos a 3ª propriedade do som: a duração, que pode ser medida em segundos ou batidas por minuto (BPM). Alternando sons mais longos e mais curtos, com o próprio silêncio mais longo ou mais curto, criamos o que chamamos de ritmo.

E seu eu tocar, por exemplo, duas notas Dó com 800Khz e 70dB durante 5 segundos, só que uma no piano e outra no violão? Como se percebe a diferença? A princípio, tratam-se de duas frequências iguais manifestando-se da mesma maneira. Alguém poderá responder: "Ah, o tipo de som é diferente." De fato, essa diferença é mais conhecida como a 4ª propriedade do som: o timbre. O que acontece é que quando colocamos uma corda, por exemplo, em vibração, ela vibra na totalidade de seu comprimento e, além disso na metade do comprimento, em 1/3, 1/4 e assim por diante, infinitamente, gerando frequencias cada vez mais agudas (altura) e de volume (intensidade) cada vez menor. Essas frequências auxiliares são chamadas de harmônicos e a nota principal principal de Fundamental ou Tônica (e é agora que a coisa começa a ficar interessante!).

Os harmônicos soam como um volume muito baixo para serem percebidos conscientemente, mas o seu somatório determina o timbre do corpo em questão.

Uma forma prática de experimentar isso é colocando uma corda na frente do monitor de seu computador e fazendo-a vibrar. Isso pode ser feito com um violão ou qualquer outra corda que emita uma nota clara e longa. Deixando a tela do monitor ao fundo, perceberemos algo muito parecido com ondas. Cada uma das "ondinhas" que vemos é a corda vibrando em uma de suas funções e emitindo um harmônico.

Todo som da natureza tem seus harmônicos. Sem os harmônicos, não seríamos capazes de perceber a diferença de um instrumento para o outro, ou de uma voz para outra, por exemplo.

As notas ditas "naturais" formam a chamada "Escala Maior" (no caso, Dó maior), sendo esta a base da música ocidental. Detalhe: esse é o sistema usado no Ocidente. No Oriente, essa história é muito mais complexa, assunto para outra ocasião.

A CRIAÇÃO EM UMA NOTA MUSICAL?

A pergunta que fica é: "Que notas (frequências) são essas que soam junto como harmônicos quando tocamos uma nota inicial?"

Resposta: Todas. E não apenas as 12 já conhecidas.

Quando se toca uma nota (qualquer uma) soam, como harmônicos, todas as outras notas. Essas notas, por sua vez, contém, como seus harmônicos, todas as outras, inclusive a nota fundamental que a gerou. Ou seja, cada nota contém em si mesma todas as outras notas que existem.

Percebemos, então, na estrutura da manifestação sonora, a mesma idéia que vem sendo transmitida há milênios pelas mais diversas escolas esotéricas, filosofias e religiões. Idéia que passou a ser adotada pela própria ciência, após o surgimento da teoria quântica e, mais recentemente, pelo modelo holográfico do universo. A idéia de que todos somos Um em essência e de que o Criador (chame-o como quiser) está dentro de todos nós.

Podemos, então, traçar dois paralelos básicos entre a natureza do som e a nossa própria natureza, enquanto consciências em evolução e filhos da Criação: com o simples ato de tocar uma nota num violão ou bater num tambor, ou até cantar uma nota, estamos reproduzindo em nosso microcosmo o ato da criação, o macrocosmo, colocando-nos então, mesmo sem termos consciência disso, em harmonia com o todo.

WE ARE GODS

Até agora demos uma olhada na natureza daquilo que chamamos de som. Começamos, também, a perceber características do som que o aproxima de conceitos espirituais que vêm sendo passados há milênios pelas mais diversas filosofias e religiões. Na verdade, quanto mais olhamos olhamos para trás na história da espiritualidade, mais profunda se mostra a sua relação com o som e a música. Desde a necessidade quase que unânime entre as filosofias antigas de expressas a criação através de manifestação sonora, até a presença do uso do som e da música como meios de elevação espiritual e de cura, o fato é que som, música e espiritualidade sempre estiveram ligados.

Através da análise da forma de vibração de uma onda sonora, com seus harmônicos, percebemos que quando soa uma nota, esta contém "dentro" de si mesma todas as outras, o que confere ao som as mesmas características do talvez mais profundo conceito espiritual que possuímos: o da unicidade de todas as coisas. De que eu, você, e tudo no universo viemos da mesma fonte, e por essa fonte conter tudo, estamos não somente ligados, mas somos, em essência, Um. Essa foi nossa conclusão básica. Vamos, agora, buscar referências desse conceito para ilustrar melhor esse paralelo:

"O universo é no Todo. O Todo é em todas as coisas." - Hermes Trimegistro

"Eu e o Pai somos Um." - Jesus

"As escrituras estabelecem a absoluta identidade de Atman e Brahman ao declarar repetidamente: "Isto é Você". Os termos "Brahman" e "Atman", no seu verdadeiro significado, se referem respectivamente a "Isso" e "Você". - Viveka Chuda Mani - A Jóia Suprema do Discernimento - Shankara, séc. VII DC

"Todo esse universo, tanto em suas partes como em sua totalidade, é uma emanação minha, e Eu o penetro com minha natureza invisível, Eu que sou o Imanifesto." "Todas as coisas de mim provém, mas Eu não tenho origem nelas: em Mim estão todas as coisas, mas Eu - em minha divindade - não estou cirscunscrito por elas". - Bhagavad Gita

Por estes simples extratos podemos ter uma idéia, nas filosofias antigas, deste conceito de unicidade. Conceito este que os físicos modernos se viram obrigados a adotar desde o momento em que começaram a investigar o mundo subatômico no começo do século passado. Essa nova física, chamada Física Quântica, expressa a realidade da mesma que as antigas filosofias. Essa "nova" visão do mundo e seus paralelos com a espiritualidade, principalmente a oriental, chegaram até nós numa linguagem compreensível para os não iniciados em física, através do físico Fritjof Capra no seu livro, O Tao da Física, do ano de 1973, do qual extraio o seguinte trecho do capítulo 10, chamado A Unicidade de Todas as Coisas:

"A característica mais importante da visão oriental do mundo - poder-se-ia mesmo dizer, a essência dessa visão - é a consciência da unidade e da interrelação de todas as coisas e eventos, a experiência de todos os fenômenos do mundo como manifestações de uma unidade básica. Todas as coisas são encaradas como partes interdependentes e inseparáveis do todo cósmico; em outras palavras, como manifestações diversas da mesma realidade última. As tradições orientais referem-se constantemente a essa realidade última, indivisível, que se manifesta em todas as coisas e da qual todas as coisas são partes componentes. Essa realidade é denominada Brahman, no Hinduísmo; Dharmakaya, no Budismo; Tao, no Taoísmo.

"A unidade básica do universo não constitui a única característica central da experiência mística; ela é, igualmente, uma das mais importantes revelações da Física moderna."

O trecho a seguir vem do prefácio escrito por Capra para o livro de Nada Brahma - A Música e o Universo da Consciência, de Joachim-Ernst Berendt: "Desde a antiguidade se diz que a natureza da realidade está muito mais próxima da música do que da máquina, e essa afimação foi comprovada por muitas descobertas da ciência moderna. A essência de uma melodia não está nas notas que a compõem, nos relacionamentos entre as notas, os intervalos, as frequências, os ritmos. Quando uma corda começa a vibrar, não ouvimos só uma única tonalidade; captamos também as suas subtonalidades - toda uma escala ressoa. Assim sendo, cada nota subentende todas as outras, da mesma forma como cada partícula subatômica implica todas as demais, segundo as últimas postulações da física das partículas."

A NATUREZA DO SOM

Agora, vamos analisar o som sob um aspecto que normalmente passa despercebido para nós: a verdadeira natureza do que chamamos de som.

O que sentimos como som só ocorre dentro do nosso cérebro, não no ambiente. É muito importante que esse conceito fique claro para todos nós, pois, por uma falta de reflexão simples, acabamos por interiorizar um conceito que acaba se mostrando um tanto confuso. Por exemplo: quando vamos a uma festa e está rolando um som nas caixas de som, dizemos que o som das caixas está preenchendo a pista. Aí é que está a confusão! Na verdade, no ambiente não há som (como costumamos chamar), há apenas ar se movendo. O som e a música só "nascem" nas nossas mentes. Tecnicamente, não há som ou música num ambiente. Estes sons só ocorrem em nossas mentes. O que ocorre no ambiente é vibração do ar.

Essa abordagem pode parecer um pouco fria e desanimadora, mas não é! Muito pelo contrário. Primeiro, ela nos permite perceber o quão maravilhoso é esse sentido que chamamos de audição, e nos permite refletir e nos perguntar: Quem realmente ouve? O cérebro, a mente, ou a consciência por trás de tudo?

O que é realmente o sentido da audição, senão uma capacidade fantástica de "sentir" as vibrações no ar à nossas volta e interpretá-las? Você já parou para pensar alguma vez que ouvir é a capacidade de sentir o ambiente à sua volta?

Passamos, então, a compreender o porquê de termos desenvolvido um sentido exclusivamente feito para perceber vibrações no ar à nossa volta. Durante toda a nossas evolução, em nossa relação com o meio ambiente, nós aternamos o papel de predador ou de presa. Ser capaz de sentir movimentos no ar em volta era, portanto, literalmente questão de vida ou morte. Precisávamos "sentir" se algum predador estava chegando ou para que lado uma presa estava fugindo. Essa necessidade foi tão grande que desenvolvemos um sentido exclusivo para essa tarefa.

Fazendo uma analogia com a tecnologia de áudio disponível atualmente, é como se o ser humano já viesse de "fábrica" com dois supermicrofones embutidos na cabeça, e o cérebro fosse ao mesmo tempo o equalizador e o hardware onde os sons são gravados (nossa memória) e rodam via software, respondendo ao nosso comando (vontade).

Outros animais, como os peixes, também possuem essa capacidade de sentir movimentos no ambiente, só que para estes, a sensação não chega como som, mas como tato, pois eles sentem no corpo inteiro as vibrações da água. Essa sensação de sentir o som no corpo inteiro ocorre conosco em situações especiais, como quando estamos em completo silêncio e imobilidade, bem relaxados, e ocorre algum som que não esperamos no ambiente, como uma porta batendo, por exemplo; no momento em que isso ocorre, a sensação costuma ser desagradável, mas nos faz pensar que quando bem relaxados, conseguimos que o nosso tato perceba as vibrações sutis no ambiente, que normamente só percebemos através da audição. Conclusão: ouvir é sentir. Pense nisso!

E daí? Daí que isso confere à audição uma característica que a faz lembrar muito nossas capacidades paranormais - a chamada "sensibilidade espiritual" que tanto estudamos. Por exemplo: Imagine que exista uma cidade onde todos são surdos de nascença. Ninguém nessa cidade nunca ouviu um som e nem sabe que ele existe. Então eles não têm nem a referência do que possa ser ouvir, e por isso, também não sentem falta de nada. Sua linguagem se desenvolveu por gestos e pela forma escrita desses gestos e eles vivem muito bem.

Agora imagine que chega nessa cvidade uma pessoa como nós, que ouve. Imagine que você chega nessa cidade, é recebido e fica hospedado na casa de uma família. Mais cedo ou mais tarde, eles começarão a pensar que você tem reações a estímulos que eles não percebem, por exemplo, quando você ouve um som. Passarão a achar você um tanto esquisito, talvez "meio louco".

Você está lá, "conversando" com as pessoas, e alguém vem se aproximando por trás de você. Eles o vêem, mas você não, e então você ouve os passos dessa pessoa e instintivamente se vira para ela. Como você acha que reagiriam seus amigos ao te verem "adivinhar" que outro estava chegando? Com um tremendo espanto, é claro! "Como pode essa pessoa sentir outra chegando sem vê-la?" - perguntam-se seus anfitriões.

Num outro momento, estão todos dentro de casa e você está ouvindo alguém cortando lenha do lado de fora. Então você ouve um trovão e "diz", via gestos, que é melhor chamar aquela pessoa que está lá fora cortando lenha, pois vai chover. Pronto, agora você definitivamente deixou seus amigos assustados. Como pode você saber que tinha alguém lá fora cortando lenha e que iria chover?

Para resumir, você iria ser taxado de louco, ou mestre, ou mágico, um semideus talvez, ou mesmo o diabo em pessoa. Não importa, eles não iriam compreender essa sua "fantástica" capacidade, e você teria que deixar a cidade às pressas, antes que começassem a beijar seus pés ou tentassem te matar.

Como vimos, falar sobre som dá muito o que pensar. Na medida em que essa reflexão abre espaço para que possamos perceber o mundo de uma maneira diferente, estamos então caminhando para uma relação mais harmoniosa e equilibrada com este mesmo mundo e, consequentemente, com nós mesmos.

Renato Soares Stella
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