TecnoArte: Vivendo na era da Revolução Eletrônica
 

Sabe-se que a revolução da eletrônica invade todos os campos da atividade humana. Os inventos da era industrial, como o cinema, o impresso, o rádio, mesmo tendo incidência sobre os processos internos de produção e pela aculturação de alguns setores dominantes, não foram responsáveis por mudanças tão violentas como as que a eletrônica vem assumindo no momento atual. As informações através de imagens impressas e faladas circulavam em alguns segmentos da sociedade, mas os setores produtivos podiam funcionar sem elas. Hoje, tudo passa pelas tecnologias: a religião, a indústria, a ciência, a educação, entre outros campos da atividade humana, estão utilizando intensamente as redes de comunicação, a informação computadorizada; e a humanidade está marcada pelos desafios políticos, econômicos e sociais decorrentes das tecnologias. A arte tecnológica também assume essa relação direta com a vida, gerando produções que levam o homem a repensar sua própria condição humana.

Os artistas oferecem situações sensíveis com tecnologias, pois percebem que as relações do homem com o mundo não são mais as mesmas depois que a revolução da informática e das comunicações nos coloca diante do numérico, da inteligência artificial, da realidade virtual, da robótica e de outros inventos que vêm irrompendo no cenário das últimas décadas do século XX. Computadores, softwares, câmeras, sensores, mixers, CD-ROMS, Internet, sintetizadores utilizados por artistas, como recursos de criação, determinam a ida para as prateleiras dos museus: pincéis, tesouras, lápis, pastel, telas, filmes. O próprio museu vai para o museu, torna-se museu dele próprio, sobretudo se pensarmos na arte das redes. Estranho metadestino para as coisas da arte... As mudanças decorrentes do abandono de técnicas tradicionais como a pintura, o desenho, a escultura, o afastamento da idéia de arte como mercadoria, a reavaliação dos conceitos artísticos fundados na representação de formas, no belo, na subjetividade, na individualidade e na artistificação dos meios, deixam seu lugar para novas formas de produção da arte. O conjunto de reflexões deixa evidente que a arte contemporânea, há cerca de 30 anos, abraçou uma série de práticas artísticas assentadas na revolução da eletrônica e nas tecnologias numéricas e que, nestes primeiros anos do século, artistas espalhados pelo mundo adquirem uma consciência cada vez mais forte de seu papel como agentes de transformação na sociedade. Não interessa mais produzir voltados para um mercado oficial. Os artistas ligados a centros avançados de pesquisa ou isoladamente assumem a ruptura com a arte do passado num cenário dominado pela arte da participação, da interação, da comunicação planetária, colocando-se em novos circuitos não mais limitados à arte como objeto ou valor de culto, mas enfatizando, sobretudo, seu poder de comunicação.

Numa passagem da cultura material para a cultura imaterial, própria da arte tecnológica, os artistas substituem artefatos e ferramentas por dispositivos em múltiplas conexões de sistemas que envolvem modens, telefones, computadores, satélites, redes e outros inventos que auxiliam na produção e na comunicação. Esta arte partilhada com as máquinas entra nas casas via satélites, telefones, oferecendo-se para ser recebida, modificada e devolvida. Em CD-ROMS, websites, altamente distribuíveis, catálogos e revistas eletrônicos, trocas via rede; é o artista que assume a curadoria de seu próprio trabalho. Comunidades virtuais online reúnem indivíduos por afinidade, em que a arte também afirma sua liberdade.

Que arte é esta da cibercultura? O ciberespaço e a arte interativa são invenções das tecnologias digitais do século XX. O espaço é mais do que o bidimensional, o tridimensional ou o arquitetônico, é o ciberespaço, o espaço de computadores, o espaço planetário, o espaço de ambientes digitais. O papel, o fotograma sobre o celulóide, os muros da cidade deixam seu lugar para palhetas e menus eletrônicos, para a corrida dos pontos luminosos, para o pixel que não se fixa na tela, para o som, para o fluxo de ondas. A arte circula em satélites que conversam no céu, em modens que traduzem sinais sonoros em gráficos, em sofisticados circuitos e sistemas computadorizados e nas telecomunicações.

Parece-nos bastante evidente que nestes úlitmos anos houve mais descobertas do que em toda a história da humanidade. Os artistas estão se dando conta de uma outra cosmovisão que converge com as teorias científicas contemporâneas, que pensam o mundo em sua complexidade, não linearidade, em relações caóticas de nascimento de novas ordens pelos fenômenos que interagem no universo.

Nos espaço das redes, a arte está sendo pensada pelos artistas que utilizam neotecnologias comunicacionais para gerar eventos que possibilitam um diálogo multidimensional com trocas de informação a distância. Conscientes das possibilidades expressivas das novas tecnologias, os "artistas da comunicação" utilizam satélites, circuitos de televisão "in live", fax, slowscan, redes telemáticas para transmissões em que imagens, sons, textos são acumulados, transformados, devolvidos nas ondas do fluxo eletrônico. As comunicações que se fazem na Net demandam um pensamento associativo, não-linear, explorando estruturas manipuláveis, através de links, que permitem abrir e fechar janelas no ciberespaço. Ásia, Europa, África se instalam imediatamente em nossas casas; indivíduos estão co-ligados; geografias são transplantadas. Todas estas situações reafirmam que a história da arte é substancialmente uma história de meios e linguagens e que as tecnologias eletrônicas deste início de século XXI acrescentam outras qualidades e circunstâncias para o pensamento artístico. Num sentido social, a posição que a arte assume no contexto cultural é de natureza política.

A arte não está mais a serviço de camadas dominantes, nem fica legitimada somente por uma elite social ou econômica, não está limitada a hierarquias. Da mesma forma que nas sociedades primitivas, a arte se reconcilia com a sociedade numa relação direta arte/vida.

Diana Domingues